sábado, 30 de janeiro de 2010

Silêncio...


"Entra naquele lugar feito de silêncio
Sentirás a vastidão do mundo
E as suas infinitas possibilidades.
Saberás que podes fazer qualquer coisa,
E ter seja o que for.
Verás isso neste momento
És alguém perfeito, tal como és."
In Homens, Dinheiro e Chocolate, de Menna Van Praag*

Assim começa o livro que ia começar a ler hoje. Li duas páginas. Estou sem paciência. Sem vontade. Cansada (que semana de cão!!).

Por norma, não sou uma pessoa muito silenciosa. Gosto de sentir vida à minha volta. Mas hoje apetece-me o silêncio. Com o sr. Prozac ausente, esta casa fica um pouco vazia. Silenciosa. Mas hoje estou a apreciar este silêncio. Desliguei o telefone (não se faz, eu sei, mas já confirmei vinte vezes o jantar de logo!! Não me vou esquecer!), a televisão está a poupar energia e até o Josh está a cantar baixinho hoje.

O silêncio pode ser um amigo por vezes. Há silêncios e silêncios. Há o confortável e o desconfortável, há o que pedimos e o que nos é imposto, há o que advém da cumplicidade de um olhar e há o que nem mil palavras conseguem ultrapassar, há o que procuramos e o que queremos quebrar, há o que encerra em si mil palavras e o que já esgotou as palavras todas. E há o nosso silêncio. Aquele que nos procura como uma necessidade física, como a fome ou a sede. Aquele que queremos adiar. Porque nem sempre queremos escutar a nossa voz. Quando o silêncio se adensa à nossa volta, a nossa voz, aquela que não fala por palavras mas por pensamentos, ganha volume, e aí vai ela em crescendo, qual bola de neve. Irra, que vozinha mais chata!!

Ponho-me a imaginar como a vida podia ser fácil. Podia mesmo. Mas a distância mais pequena entre dois pontos não é uma linha recta. Se Einstein**, que era Einstein dizia isto, quem sou eu para contrariar? A vida também não é uma linha recta. Por vezes gostava que fosse. Sem curvas, sem esquinas, sempre a direito, de preferência com setas a indicar o melhor caminho, sinais brilhantes a dizer perigo, não mexer, com semáforos nas bifurcações. Estas são as piores, as bifurcações. Na minha santa terrinha usam uma expressão engraçada "como o tolo no meio da ponte". Não sabe se vai para a frente, se vai para trás, se salta ou se se deixa ficar ali no meio.

Há os caminhos seguros, que já conhecemos, que não têm altos e baixos, em que não aparece nem uma flor fora do lugar. Conhecemos cada pedra, cada erva, cada árvore. Sabemos sempre o que vem a seguir. Dá-nos uma noção de segurança. Mas, ao fim de algum tempo, de insatisfação também. Até podemos adormecer que seguiremos por esse caminho que tão bem conhecemos de olhos fechados, sem medo de cair. De vez em quando, paramos para analisar o caminho. Muitas vezes até encolhemos os ombros, como quem não tem outra opção. Se é assim, que seja. Mas na verdade, até pedimos, baixinho, para aparecer uma pedrinha fora do lugar.

Depois, há os caminhos que não conhecemos. Que nos atraem. Por um lado há a vontade de conhecer, de descobrir esse outro caminho, até porque já o espreitamos. Gostamos do que vimos e da sensação de sentir aquele caminho debaixo dos nossos pés descalços, de ver e cheirar flores que nunca tinhamos visto,  de apreciar cada momento usado na sua descoberta. Por outro lado, há o receio de não saber contornar as pedras, de magoarmos os pés, de deixarmos o perfume das flores impregnar-se de tal modo em nós que não mais o deixemos de sentir. Mas este medo não faz o caminho desaparecer. Podemos fazer de conta que ele não existe... mas na verdade não conseguimos.

Tenho para mim que o tolo no meio da ponte pode ser tolo, mas é feliz.

* Este livro é um livro muito, muito light. A presonagem principal, Maya, é dona do Cocoa Café, com problemas em pagar as contas e viciada em chocolate. "Um pequeno livro, meigo, comovente e ironicamente sábio, é ele próprio um chocolate - doce e delicioso.", nas palavras de Katie Fforde
** Eu sei, Einstein baseava-se em factos um pouco mais físico-quânticos que os meus :).

10 comentários:

Lana disse...

eu por acaso sou uma pessoa incapaz de estar silenciosa quando tenho alguem perto mas que adora o silencio quando está sozinha =) esse silencio e aqueles confortaveis...tidos com aquelas pessoas especiais =)

ergela disse...

O silêncio é por vezes o bálsamo da alma.

Beijocas.

mjf disse...

Olá!
Só se aprecia o silêncio se estivermos bem com nós pr´prios:=)))

Beijocas

maria teresa disse...

Sou da opinião do Ergela. O "som" do silêncio, muitas vezes, é divinal...
Abracinho


PS Na geometria riemmiana ( matemático Riemman) é que se prova que a menor distância entre dois pontos é uma "curva", na euclidiana não...

Phyxsius disse...

Às vezes, gosto muito de ser o tolo no meio da ponte...

E quanto aos caminhos, gosto muito de um carreiro em que já conheço cada recanto, onde nada me surpreende. Mas, de tempos a tempos, é preciso um abanão, uma paisagem nova. Percorrida, contudo, com a certeza de que é um caminho conhecido, percebes?

Checa disse...

Nirvana,
Em "silêncio" tenho seguido o teu blog.:-)Sabes,hoje especialmente identifico-me com esse tolo em cima da ponte. Acho que sei a direcção que deveria tomar, a mais correcta, mas não sei se me apetece. Vou esperar que a vida decida por mim, é sempre um risco, mas por vezes não temos outra opção. É bem mais confortável culparmos o destino.

beijinho

by " A Invisível " disse...

Querida Nirvana;
Eu adoro o silêncio. Adoro estar um pouco "sozinha" no "meu mundo" e abstrair-me de tudo... Gosto.
Gostei muito deste teu texto.:)
Beijinho grande querida Nirvana* e bom Domingo*
Abraço apertado*

Anónimo disse...

Ó minha tolinha, tu deixa-te ficar no meio da ponte que eu já te apanho! Como de tolinha não tens nada fico sossegada!
Aproveita para pensares que não são só os outros que são importantes. Tens a péssima mania de pensares nos outros antes de pensares em ti. Sabes bem que em algumas ocasiões deixaste de fazer o que querias por causa de outras pessoas. Está na hora de começares a pensar mais em ti.
Dos caminhos, sei que escolhas o caminho que escolheres, nunca vais deixar de ser tu.
Beijinho grande
IM

Pinkk Candy disse...

é sempre bom termos o nosso silêncio, e estarmos connosco, faz-nos bem =)

XOXO

joao disse...

É em silêncio que gosto de ler estes teus posts. São palavras que me fazem pensar. Também já estive em bifurcações e não sei se escolhi sempre o melhor caminho. A vida é isso mesmo, escolhas.
Gostei muito.
Abraço