quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Mansão Jutreiquês - Capítulo 2

 
O post de hoje necessita de uma introdução, e ninguém melhor para o fazer do que o autor da ideia:

"Não posso deixar de recomendar, um livro a estrear muito em breve, redigido por um conjunto de autores nacionais de enorme talento.  Uma obra prima excelente, espelhando as novas tendência neo-ficcionistas, tão presentes em blogs de requintados gostos e apurados sentidos estéticos.
A grande curiosidade deste livro, reside no facto de ter sido desenvolvida por uma tertúlia peculiar, que contribuindo cada qual com o seu capítulo, produziu uma obra única, apelando à imaginação e criatividade inerente a cada um.

Numa mansão de um requinte inigualável, habitam personagens pitorescas de contornos de difícil identificação, cujo objectivo é o respeito pelos valores máximos da liberdade...e o reforço dos elos de amizade que os une.
By Touro Céptico, aqui.

O primeiro capítulo está aqui

A mim, cabe-me o segundo capítulo, por isso, aqui está:



A MANSÃO JUTREIQUÊS - CAPÍTULO 2


Rodeada pelas montanhas, nos confins das Montanhas Jutreicanas, fica a bonita aldeia de Jutreicóis, habitada por pessoas simples, que buscam na meditação a razão da existência. Olhando para o vale, descobrem-se as pequenas casas, feitas de barro, com telhados de colmo, pintadas com cores garridas e pequenas janelas ovais. No centro da aldeia, fica o recinto onde todos se reúnem para a meditação e onde se celebram os acontecimentos da aldeia. Nesse dia, de manhã cedo, apenas uma menina passava por lá, seguida pelas suas 2035 ovelhas. O destino eram as altas pastagens da montanha de Jutreilá. Nirvana era o nome dessa menina. Em Jutriquês, Nirvana significa vento. Durante muito tempo, pensou que lhe tinham dado esse nome por andar sempre com a cabeça no ar, a sonhar, como lhe diziam. Soube, mais tarde, que não nascera na aldeia e o seu nome era atribuído ao facto de ter sido trazida pelo vento. Depressa a sua cabecinha começou a magicar de onde teria vindo. Sempre se achara diferente dos outros aldeões. Não tinha os olhos rasgados como eles, não tinha o cabelo escuro e liso, nem a pele morena, mas nunca tinha valorizado essas diferenças. Aprendera, com os outros, a meditar, a apreciar a beleza da natureza, a viver em comunhão com o mundo e a gostar de tremoços.

Eram estes os pensamentos que a acompanhavam nessa manhã, enquanto guardava as ovelhas, acompanhada do seu fiel cão de guarda chamado Berny, ao som da música da flauta que tinha feito com um ramo de bambu. O suave  e rotineiro decorrer da manhã foi interrompido primeiro pelo levantar de orelhas do Berny e depois pela agitação das ovelhas. Nirvana subiu para a rocha mais alta e viu, ao fundo do caminho, uma movimentação que não consegiu decifrar. Aproximava-se uma fila enorme de burritos e carroças. Parecia não ter fim. Aproximando-se, viu que se tratavam de pessoas. Muitas pessoas. Da segunda carroça emergiu... o que era mesmo? A primeira coisa que viu foi o cabelo, muito bem penteado e ornado com umas pedrinhas brilhantes. Perguntou-lhe onde ficava a aldeia mais próxima. Não se fazendo de rogada, Nirvana guiou-os até à praça central de Jutreicóis e foi chamar o grande mestre. Enquanto aquela distinta senhora falava com o mestre, Nirvana aproveitou para ver o que se passava no resto da caravana. Era o staff (o que é staff? Perguntava de si para si. Eu só conheço stafada, que é como me sinto no fim do dia de pastoreio). Não sabia o que era staff, mas parecia-lhe ser uma coisa muito importante, porque todos, sem excepção, tinham um ar encantador. Ficou a saber quem era o Gaspar (nome que iria ouvir muitas vezes), o Jojo, o Defensor, o Bernardo, o Rafaelo, o Pêpê, e tantos outros. Ficou encantada com o staff. Continuava sem saber o que era, mas gostava.

Corria pela aldeia o boato que aquela senhora tinha vindo de tão longe para aprender a meditar (uma senhora de outro país até tinha seguido a ideia e escrito um livro chamado comer, orar e amar). Mas esta senhora não queria que soubessem, queria ser Invisível. Queria aprender a meditar e descobrir os segredos dos mestres Jutreiqueses. Ficaram bastante tempo na aldeia. Durante esse tempo, Nirvana acompanhou o desfile de vestidos, perfumes, penteados. Começava mesmo a admirar aquela senhora Invisível, mas a sua admiração aumentou ainda mais um dia em que descobriu tão distinta senhora a afagar um pequeno carneirinho que se perdera da sua mãe, não descansando enquanto não a encontrou. 

No espírito de Nirvana, o sonho de conhecer o mundo além de Jutreicós começou a crescer. Quando o dia em que a caravana iria embora se aproximou, a tristeza instalou-se no seu coração e no seu rosto. Habituara-se demais àquelas pessoas. Essa tirsteza, pouco habitual nela, não passou despercebida ao Grande Mestre. Há muito que ele esperava que ela batesse asas, e foi o que lhe disse nesse fim de tarde "Vai, voa, conhece o mundo, mas não te esqueças nunca do que aprendeste aqui."  Com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto, Nirvana decidiu partir.  Falou com a Ti Jasmina para lhe fazer uns vestidos, e com o Ti Luis-Bom-Tom para lhe arranjar uns pares de sapatos novos. Arrumou tudo num saquinho de serapilheira e escondeu-se numa das carroças.

Andaram durante muitos e muitos dias, até que o ritmo da caminhada começou a diminuir. Espreitando, comeu uns bons quilos de poeira de tal modo a sua boca se abriu ao ver a casa cujos portões se abriam naquele momento. Uma mansão lindíssima, rodeada dos jardins mais bonitos que alguma vez vira. Não que tivesse visto muitos, verdade seja dita. Começou a duvidar da sanidade mental da senhora Invisível. Com uma casa como aquela, porque andava ela pelas montanhas e a dormir no chão duro? 

Sem ninguém dar conta, fugiu e escondeu-se na casa do jardineiro. Quando este a encontrou zangou-se (levava o seu nome Defensor muito a sério) e levou-a à presença da patroa. Mal se atrevendo a olhar para cima, ouviu a simpática voz da D. Invisível, como ficara conhecida:
- Esta não é a pastora campónia de Jutreicóis?
- Souês simês senhoraês.
- O que faz aqui a menina? Não devia andar a pastar as ovelhas? E fale-me português, que com tantos ês, daqui a pouco fico com as orelhas trocadas.
Nirvana contou-lhe a sua história, em como sonhava conhecer o mundo, e como tinha ficado cativada por ela e pelo seu staff.
- Ora, minha pequena - disse a D. Invisível - vieste ter ao sítio certo! Gaspaaar!! Organiza tudo!! Vamos dar uma grande festa aqui na mansão em honra da pastora! Mas não te posso apresentar como pastora! Raios!!! Vamos chamar-te  cof, cof, cof, Reencarnação. Nome chique tem de ter duas letras seguidas iguais.

Quase por magia, a mansão iluminou-se e num instante estava montado o cenário para uma grande festa! Os convidados começaram a chegar, nos seus lustrosos carros.

No seu novo vestido, muito discreto, demasiado discreto,  feito de flores (de certeza que com um jardim daquele tamanho, não iam dar pela falta de um canteiro), Nirvana foi apreciando quem chegava. Sentada na Cornélia, D. Invisível cumprimentava alegremente quem chegava.

Primeiro chegou um Ferrari amarelo, e de lá saiu um Enfant, com ar de Terrible, uma postura algo peculiar, causada por anos no garimpo, que num instante se atirou aos tremoços (ainda bem que ela guardara alguns nos bolsos).
Logo de seguida, chega uma Gaja, conduzida pelo seu motorista. No seu vestido, laranja e vermelho, tinha bordado um G, maiúsculo, claro está, trazendo debaixo do braço um tabuleiro de xadrês.
De seguida, um grande rebuliço, e toda a gente ficou a saber que se avizinhavam Complicações, Miss, de seu nome, apregoando que apenas tinha 24 horas para a festa.
Nada dada a complicações, chega de seguida a Izzie, logo acalmando o nervoso de toda a gente, dizendo take it easy!
Com ar pouco crédulo, chegou o escritor que dizia ter chegado ali por acaso, Céptico de apelido e Touro de nome. Instalou-se na Cornélia, observando atentamente enquanto escrevinhava num pequeno bloco.
Dos céus chegou uma nave, directamente de Marte, que aterrou após um duplo mortal, ao som de um belo solo de guitarra. Mais parecia a arca de Noé! Do seu interior, deslizando sorridente, desceu a Mariana Marciana.
Num fantástico TomCat, chegou Anira, logo seguida da S*, acabadinha de chegar duma noitada. Muito cansada, dizia ela, mas festas na mansão não se perdem.
De vermelho vestida e com uma carteira em forma de bola de futebol, chegou alguém que num instante se pôs a dançar, mas ao contrário. Canhota era o seu nome.
Com a malinha ao ombro e ar de viajante, chegou a Mjf, com as suas sábias palavras.
Numa bela carruagem, como obrigava o seu título de nobreza, chegou o Marquês de Sade, que logo tratou de rumar ao jardim e instalar a sua aparelhagem de som e pôr música no ar.
Saindo do seu recanto, onde passeiam os Suricates, Mário também não queria perder a festa. Boas conversas, bons temas, amigos e alegria eram motivos mais que suficientes para ser um bom momento. 
No aeródromo particular uma avioneta aterrou, e from the clouds a Girl apareceu.  Apressada, pois claro, pois da festa não queria perder nada.
De longo cabelo loiro e vestido azul turquesa, outra Mariana chegou. Barbie? Perguntou alguém. Barbie is a bitch darling foi a resposta que ouviu. 
Do Norte veio a E., que encontrou a Rita G pelo caminho. Arrastaram a Rainbow e entretiveram-se com Silly Talks.

Muitos mais convidados se seguiram. Não tivesse Nirvana sido distraída pelo staff e muito mais teria para contar!

Assim, espera ansiosamente que cada um dos convidados diga, de sua justiça, como encontrou a Mansão Jutreiquês!


18 comentários:

by "A Invisível" disse...

OH minha piquena pastorita Jutreiquêsa, Nirvana Nexita da Reencarnação:

Como me lembro, desta estória como se fosse hoje. Coitadita, sempre ladeira acima com o raio das ovelhitas atrás... Assim; cheiinha de lama. Sim, porque até me conheceres, nem sabias o que era um banho!
Lembras-te,quando te mostrei a banheira, pela primeira vez lá na minha mansão, e tu pensas-te que era uma panela gigante?!
Tadita... Tão inocente! COF! COF! CPF!

O que vale, é que tive paciência. para te aturar e ensinar, acerca das maravilhas deste mundo, como foi o caso dos pistácios... Lembras-te?...

Pronto... Verdade seja dita; continuas uma pirosita d´um raio... Mas pronto, ninguém é perfeito!

SHAME ON ME - Nirvana Nexita da Reencarnação - SHAME ON ME! - PLEASEEE!!

Bem.. Vou ali tratar de umas piquenas coisitas com o meu staff!!

Fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!

by "A Invisível" disse...

P.S.- ESPERO NÃO FICAR MUITO "STEFADA"... Cof! Cof! Cof!


Adorei o texto!

Espero que alguém escreva o 3º Capitulo!

Beijinho e aquele abraço muitooooo apertado que tão bem conheces!

Canhota! disse...

Agora fiquei sem palavras...está demais Nirvana Pastorinha!

Posso dizer que está uma delicia, uma ternura e mais que tudo de umaimaginação sem igual!!

Assim não dá!!Com o 1º capitulo + este 2º não vou ter coragem de escrever o 3º ah pois não...estão ambos arrebatadores!

Acho que vou-me guardar para ir unicamente a festa do BEST SELLER...sim porque dançar ao contrário é comigo!!!

PARABÊNS! PARABÊNS!

jinhos de quem tanto gosta de ler este teu cantinho...

Ah mas agora deixe de pastar ovelhinhas e faz favor de dedicar a outro tipo de pastoreio, pois com a imensidão de jrdineiros, motoristas e por ai fora...o pastoreio torna-se mais atractivo, nõ acha?

Checa disse...

Querida Nirvana,

Simplesmente fantástico!

Beijinho

TouroCeptico disse...

Adorei mesmo!!

Esta passagem para um estilo literário queirosiano...ao invés do bocagiano do inicio...dá outro toque de classe à obra :))))


Fantástico e obrigado!!

Beijinhos

Marquês de Sade disse...

Lol
Marquês a DJ? Muito bom! :)
Bjinho

Cris disse...

Amei!! Que criatividade hein!

Mariana marciana disse...

haaaa muito bem, tempos artista!!!!
Claro que acho que essa D. Invisível está muito "favorecida"... quando eu contar a minha verão, tenciono por tudo em pratos limpos!! :D
Tu e as tuas ovelhas são amorosas sabias??
Beijinhos

Girl in the Clouds disse...

Fenomenal, adorei!!

Nirvana disse...

Querida Senhora Invisível
Não fosse a sua busca pela meditação e ainda estava em Jutreicóis. Não que não gostasse de lá. Aprendi muito e ninguém sabe mais de ovelhas do que eu.
Eu já a pensar em fazer uma bela caldeirada de staff na banheira :)
Os pistácios ainda são um mistério para mim, prefiro os tremoços, mas estes desaparecem sempre terriblemente depressa.
Hummm...isso quer dizer aumentar o staff???? :))))))))))))

Respeitosos cumprimentos, senhorita :)

PS - Eu já te disse que te ajudo a tratar do staff, de boa vontade ;))

Beijinho grande, Amiga, e aquele abraço :)

Nirvana disse...

Canhotinha Linda
Obrigada :). És uma exagerada, mas prontosssssssssssss :))
Nada de desculpas, não senhora. Ainda faltam muitos capítulos.
Palpita-me que a festa de lançamento vai ser uma mega-mega-festa!!
Quanto ao pastoreio, os ovelhitos não são nada de se deitar fora :))
Beijinho grande :)

Nirvana disse...

Querida Checa
Obrigada.
De vez em quando sabe bem "fugir" à realidade e simplesmente divagar.
Beijinhos, minha amiga

Nirvana disse...

Caro Touro Céptico
A ideia do livro cativou-me. Super-interessante. Parabéns por isso. Nunca me lembraria de tal coisa!
No fundo, é um desafio, que espero que continue.
Beijinhos, e obrigada :)

Nirvana disse...

Caro Marquês de Sade
Pela qualidade da música que se ouve na tua casa, não tenho dúvidas que escolhi um excelente DJ ;)
Beijinhos

Nirvana disse...

Querida Cris
Obrigada! A ideia é no fim juntar os capítulos todos, reunirmo-nos e rirmos um bocadinho!
Escrever é uma terapia!
Beijinhos :)

Nirvana disse...

Querida Marciana
E que artista!! LOLLL!!
Vá lá a escrever o próximo capítulo. Se bem que tenho uma dúvida: como vais conseguir escrever com mãos de barbatana? :))
Beijinho grande

Nirvana disse...

Querida Girl
Obrigada! Aterrar de avião privativo não é para qualquer um!
Beijinhos

Anónimo disse...

Minha amiga, tu quando voas, ninguém te pára.
Beijinhos
IM