quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Papa e o País


Todo o rebuliço em volta da vinda do Papa a Portugal está a levantar vozes em qualquer canto do País. Todos temos direito à nossa opinião, é verdade, mas também é verdade que todos têm direito a que a sua opinião seja respeitada. Ter capacidade para rir com os acontecimentos, é saudável e até louvável. Conhecer o limite entre brincadeira e mau gosto também, e ofender o outro, não respeitando as suas crenças, só porque eu acho que é assim e eu sei tudo, não me parece muito correcto.

Cresci no seio de uma família cristã, católica, com direito a tudo: baptismo, primeira comunhão, crisma, comunhão solene. Frequentei a catequese e fui à missa. Transmitiram-me a fé em Deus e incluíram-me na Igraja Católica. Quando comecei a pensar por mim, comecei a ter a minha opinião e a não aceitar tudo que me era apresentado. Comecei a dissociar Deus, em que continuo a acreditar, e a Igreja, em que não acredito. Aliás, sou persona non grata na Igreja, a partir do momento em que quebrei um dos sacramentos que recebi. Por vezes, gostaria de ter a inocência do meu filho que disse à avó que "se Deus e Jesus não existissem não se falava deles". Já tive muitas dúvidas e já perguntei muitas vezes "onde está Deus", quando vejo tanta coisa má, tanta pobreza, tanta catástrofe. Como se Ele fosse o culpado de tudo. Mas, tal como quando damos um brinquedo a uma criança, em que ela o pode estimar e tratar com carinho, assim também nós fazemos com o mundo que nos deram. Se a criança estraga o brinquedo, a culpa não será de quem lho deu. É-lhe dada a opção de conservar ou estragar.

Sendo a Igreja formada por homens, é falível, reinando em muitos sectores a hipocrisia. Há coisas que não são admissíveis, na minha opinião. Muitos horrores e crimes foram perpetuados pela Igreja em nome de Deus. Mas também muitas coisas boas foram feitas por essa mesma Igreja. A fé e a crença nos ensinamentos cristãos foram o suporte de muita gente e, muitas vezes, uma derradeira esperança e factor de união. Imaginem então um mundo sem fé nenhuma. 
Nem todos ingressarão na vida religiosa pelas melhores razões. Há pedofilia na Igreja, assim como em outros sectores em que não deveria haver. Há pediatras pedófilos, há professores pedófilos, e não é por isso que a medicina é irradicada da infância ou as escolas fecham. Há pais que abusam eles próprios dos filhos. Pais não será o nome correcto, mas não quero ofender os animais, por isso fica o nome que a biologia lhes concedeu. Na minha opinião tomar o um pelo todo e reduzir tudo ao mesmo não é correcto. Há padres que efectivamente encaram a sua vida como uma missão de ajuda ao próximo. Conheci alguns assim. 

A igreja condena o uso de preservativo ou qualquer outro contraceptivo, assim como o casamento homossexual. Está errado (na minha opinião). Mas não é só a igreja que o faz. Muita gente discrimina os homossexuais, chegando ao extremo de dizerem "antes queria um filho drogado do que homossexual". No entanto, essas mesmas pessoas levantam a voz para falar contra este aspecto da igreja. Muitas outras coisas estão erradas na Igreja.

O Papa faz uma visita a Portugal. É recebido com pompa e circunstância. Além de ser um Chefe de Estado, é o líder da Igreja Católica. Goste-se ou não se goste. Portugal é (ou parece ser) um País maioritariamente católico. Alguns exageros? Concordo. Mas em muitas conversas que ouvi fiquei com a impressão que esta visita do Papa funcionou como um bode expiatório para todos os problemas do País. Aproveitamos para expurgar o nosso descontentamento usando a visita papal. O décimo terceiro mês vai voar, pelo menos parte dele, com ou sem Papa. Os impostos vão aumentar, com ou sem Papa. O desemprego, as injustiças sociais vão aumentar, com ou sem Papa. A tolerância de ponto não se justifica. É a minha opinião. Mas não é esta tolerância de ponto que vai levar o País à bancarrota, quanto mais não seja porque já lá estamos. O que não entendo é como se diz tão, tão mal da tolerância, como se está tão preocupado com ela, como é uma estupidez tão grande, como achando que é um ultraje, se faz parte desse ultraje, podendo não a gozar. Se acho assim tão mal, se estou assim tão preocupada, porque não vou trabalhar? 

Não acho que esteja bem gastar tanto dinheiro num país em crise. Muitas outras prioridades deveriam ter a atenção de quem nos (des)governa. Não me acredito que o Papa tenha exigido tudo o que foi feito, não devendo ser ele o alvo das críticas, na minha modesta opinião, repito. Assim como acho que a pessoa ao meu lado, se acredita e quer acreditar na Igreja, no Papa, no que for, merece o meu respeito. Brincar, tudo bem. Ofender, acho que não. 

Muito mais poderia ser dito e discutido. Muita gente discordará do que digo. É legítimo, aceito-o e respeito.

24 comentários:

mjf disse...

Olá!
Concordo !!
Mas com este expectaculo todo as pessoas esquecem o que os politicos andam a tentar fazer :=))
O Papa é realmente um chefe de Estado e deve ter as honras como tal...mas não exageremos!!!!!

Beijiocas

joao disse...

Começo por te dar os parabéns por expores o que pensas quando a palavra de ordem é contrária. Não concordo com tudo, não acredito em Deus embora respeite quem acredita. Mostras ser uma pessoa sensata, que respeita os outros. Mas isso eu já sabia :-)
Um abraço

Bloguótico disse...

Pouco ou nada a acrescentar! Sem surpresas, sabes do que escreves e como escreves! É a mais pura das verdades...

Bloguótico disse...

O tema com que nos brindaste hoje está na ordem do dia, como não podia deixar de ser, e como tal vários posts se têm dedicado a ele! Fi-lo no respectivo blogue e volto a fazê-lo também aqui, contigo... reforçando o meu anterior coment! Sugiro a leitura deste post, de uma blogger que costumo ler:

http://coisaseventualmentedocatano.blogspot.com/2010/05/acontecimentos-do-catano-manobra-de.html

Sonhadora disse...

Concordo com tudo o que disseste! Acredito em Deus mas não nos padres, que fazem as suas leis, cada um faz como quer e bem entende, o que ainda não percebi como tal é possivel, pois penso que estudaram todos a mesma matéria e as mesmas leis!
Acho esta visita papal ridicula, não gosto deste senhor, ainda ontem vi-o em Fátima e deu um sorriso de mau, e tem olhos de mau, posso estar a ser injusta, mas desde o dia que proclamaram Papa que eu não gostei dele, tem olhos de mau! Peço desculpa a quem gosta, não quero ofender ninguém, mas é o que sinto! É ridiculo a forma como está a ser tratado, parece que é uma pedra preciosa prestes a se partir! Estamos em crise, certo? Para quê esta fantochada toda? Para quê gastar rios de dinheiro? Claro que quem paga tudo isto somos nós, independentemente de termos fé ou não, não temos voto na matéria! O que o senhor Papa vem trazer-nos de bom???? Ainda não percebi, mas talvez eu seja mesmo DDDDAAAAAA!!!
Beijocas

by "A Invisível" disse...

Minha Amiga Nirvana ;

Concordo com tudo o que escreves-te. Confesso que me faltam palavras, para escrever o quanto gostei deste texto.
Respeitar a opinião dos outros, entre muitas outras coisas - SEMPRE!

Beijinho enorme minha Amiga* e "aquele" abraço. ;O)

Tem um óptimo dia! Fuiiiiiiiiii!!!!

Libelinha☆ disse...

Estou sem palavras... Não que concorde com tudo o que dizes mas o principal está lá e é o respeito de opiniões!...

Beijinhos ;P

Tia Complicações disse...

Concordo a 100% com o teor do post muito bem apresentado e transparente.
A minha indignação também não vai o Santo Padre, mas sim para o governo cagão e pelintra que temos.
Vivem de ostentação, de aparências, é nós é que pagamos o pato. Já dizia o meu avô " com as botas do meu pai sou eu um homem",pois à custa do zé povinho fazem a festa e afundam mais o País. :(
Beijossss :)

Rita G. disse...

Embora não concorde com tudo o que escreveste, uma coisa apoio totalmente, o respeito pela opinião dos outros. Tenho a minha opinião sobre a igreja mas prefiro não a expor, porque acho que é um assunto muito pessoal, e que cada um interpreta como desejar, mas acho que a visita do Papa e os gastos que se fizeram contribuem sim para os crescentes problemas financeiros do país. Acho que é mais um "acontecimento" onde se gastaram milhões sem necessidade, mas como dizes talvez o Papa nem pedisse tudo isso. A culpa é daqueles que decidem o destino deste país que não tomam as decisões mais correctas sobre onde gastar o dinheiro. Mas esta é a minha opinião...bj:)

S. disse...

E muito se tem escrito e falado sobre este tema nos últimos dias e esta é sem dúvida a primeira vez que alguém o faz da forma mais correcta possível. Muitos parabéns, se neste país/mundo todos fossem como tu, todos pensassem como tu, acredito seriamente que iríamos viver num lugar bem melhor.

Concordo com cada uma das tuas palavras, e honestamente? Não há nada que eu possa acrescentar de forma suficientemente inteligente ao que disseste.

Beijinhos enormes

CybeRider disse...

Respeito-te demasiado para conseguir vir cá sem comentar este texto. Não te vou recordar o quanto está bem escrito, o quanto admiro a clareza com que consegues transmitir as tuas convicções, porque isso já tu sabes.

Relevarei o conteúdo. Sem tomar partido pelos que ofendem, se bem que a ofensa seja algo de bastante relativo quando se fala de figuras públicas que são principalmente símbolos, e me custe aceitar muito do que tenho lido, por revelar injúria pessoal a alguém que não se conhece, esquecendo que o papa é além de importante teólogo, uma pessoa presumívelmente "de bem", não posso deixar de alinhar com os que vêem naquele estado a diferença, o sectarismo, o fundamentalismo que domina a sua sociedade interna sem outra razão que não seja a mera crença, certo será que aparentemente ninguém lá está por sujeição consciente, mas mesmo a inconsciente não deixa de ser sujeição. Vale-me nessa medida o peso crítico que aponto a qualquer sociedade islâmica, consequentemente o mesmo respeito pelas suas chefias. Já como líder da sociedade católica o meu sentir é diverso. Ainda impregnado dos valores que não consigo expurgar, embora tente, e sem saber quantos sacrilégios cometi, reconheço que Portugal não é uma sociedade laica, antes um país católico, renegar este facto seria renegar as suas origens, algumas que custaram tantas vidas aos "infiéis" para que pudessemos ter o nosso território, se isso é bom? Não, não é, mas é a inegável, incontornável e irreversível. Se tem custos elevados manter esta posição? Terá, e estão à vista, como custará eventualmente aos Estados Unidos manter a sua posição de império, mas isso são outros quinhentos.

Vi uma foto do nosso Manuel de Oliveira, ajoelhado a beijar a mão do papa. Compreendo, mas na minha posição pessoal há ali uma inversão de papéis, nenhum homem de bem de 100 anos se deveria ajoelhar para beijar as de um "miúdo" que atingiu uma posição social pela fé. Aceito o simbolismo, não aceito a razão. Isso não me fará ofender ninguém intencionalmente, mas claro que esta posição pode fazer alguém sentir-se ofendido, não será questão minha. Entre o respeito, a inteligência e as razões haverá uma miríade de acefalias comandadas pelo êxtase, a essas desejo que o tempo cure, que não haverá fé que converta.

Beijinho, Nirvana

Marco Rebelo disse...

já somos 2 :)

Nirvana disse...

Olá, Mjf
Concordo que há exageros. Mas quem organizou a festa é que os cometeu. Eles não andam a tentar fazer, eles estão a fazer, e vão continuar. Quem trabalha, quem se esforça por, através do seu trabalho, tentar ter uma vida mais ao menos é que vai pagar o pato.
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá João
Ter opiniões contrárias é normal natural. O que seria do amarelo se gostassemos todos do azul? A minha questão é que é feito do respeito?
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá, Bloguótico
Para a próxima, escrevo com letra invisível :o.
Obrigada pelo link. Li e gostei. Bem ecrito e, no fundo, é a mais pura das verdades!!
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá, Sonhadora
:), o que dizes é o que muita gente pensa, e não acho que sejamos daaaah!! Estamos em crise, e ostentamos uma riqueza que não temos. Mas o problema não é a visita papal. Antes fosse. Ele já vai embora e ficávamos todos contentes. O problema é muito maior que esse. Eu não acredito na igreja, não frequento a igreja, não vou à missa. Mas respeito quem vai.Não vou ver o papa, mas respeito quem vai. Não acho o senhor propriamente simpático ou sequer carismático, mas se para muita gente representa o líder da sua igreja, que assim seja.
Beijinhos

Nirvana disse...

Querida Invisível
Já tinhamos falado sobre isto (sim, porque não é só copos e tal, também falamos de coisas sérias ;)), por isso sabes que o que aqui está é o que penso. Assim como, tal como tu, respeito as diferentes opiniões e opções. Posso não concordar com elas, mas respeito-as.
Beijinhos, Amiga

Nirvana disse...

Olá Libelinha
O que me surpreende não é a falta de respeito pela opinião alheia, é essa falta de respeito vinda de quem apregoa o respeito e a tolerância. Um pouco mais de respeito e coerência não fariam mal nenhum ao mundo!
Beijinhos

Nirvana disse...

Tia C
O pior é que eu acho que estamos a afundar-nos cada vez mais e mais. Política de austeridade, foi o que disseram. Austeridade para quem? Para quem trabalha. Já cheguei a uma conclusão brilhante: não compensa trabalhar mais, não compensa lutar e batalhar para conseguir um nível de vida melhor, porque cada vez nos vêm buscar mais o esforço do nosso trabalho. São essas pessoas que vão segurando a economia. Não percebo de política, nem percebo muito de contas, não preciso perceber muito para ver que, quem trabalha é que paga o pato, o arroz, o pão e o vinho!!
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá Rita
Já tinha comentado no teu cantinho este assunto. E concordo que se gastou dinheiro que, pelos vistos, não temos. Só não acho que o Papa, a visita papal, seja a causa de tudo isso, e que, em prol desse descontentamento (justificado) pelo estado em que está o nosso país, se ofendam as pessoas que acreditam, e têm esse direito, na igreja, no papa, e querem manifestar essa sua crença.
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá, Cybe
E eu agradeço as tuas palavras. Como sempre, acrescentas sempre, sempre algo construtivo.
A falta de respeito que falo, e a ofensa que falo, não incluem o não acreditar, o direito de expôr opiniões. Incluem o falar por falar, sem respeito pela pessoa que está à minha frente. Eu própria tenho a minha opinião sobre a igreja, e não é das melhores. Mas, acredito que dentro da igreja católica, haja quem se oriente pelos princípios que essa mesma igreja se deveria reger. Muita coisa se passa no interior da igreja católica e muito se passou que a tornaria muito pouco católica. Todos sabemos isso. A igreja não é mais do que um grupo de homens que, muitas vezes, ornados com a palavra de Deus servem apenas os seus intentos.
O que escrevi, Cybe, resultou de conversas que fui ouvindo, e em que fui participando.Em que nem sempre se manifestaram apenas opiniões, de forma correcta, em que houve de quem apregoa a correcção tudo, menos isso. Eu, e não sou o Manuel de Oliveira, não me ajoelharia para beijar a mão do Papa. Mais depressa me ajoelharia para ajudar alguém a levantar-se do chão. Mas, se calhar, pessoas que se ajoelham para rezar todos os dias são capazes de passar ao lado de alguém caído no chão, desviar-se para não tropeçarem e seguir o seu caminho.
Beijinhos, Cybe

Nirvana disse...

Szinha
Obrigada pelas tuas palavras. É apenas a minha opinião. Não há muitas coisas que me façam irritar, mas a falta de tolerância e respeito são daquelas coisas que me incomodam a sério.
Beijinhos

Nirvana disse...

Olá, Marco
O que vale é que o Papa já vai embora hoje! O mal é que os nossos problemas, os problemas deste país que até está estrategicamente à beira-mar e mais facilmente se afundará, ainda estão a começar!
Beijinhos

Anónimo disse...

Muitos Parabéns pelas palavras que escreveste.

Rute Costa