quarta-feira, 5 de maio de 2010

O meu vestido vermelho, ou assim-assim...


Finalmente tenho aquele vestido vermelho, lindo, lindo, que andava a namorar há tanto tempo! Vermelho mesmo, daquele vermelho das rosas e das cerejas! Embrulhado em papel de seda, a sua cor é tão intensa que ultrapassa a espessura do papel e faz o meu coração cantar e os meus lábios sorrirem, enquanto os olhos brilham! Com muito cuidado, desembrulho-o e coloco-o num lugar especial,  visível, mas protegido das intempéries externas. A sua cor reflecte-se em cada pequeno pormenor à sua volta. Lindo, lindo!
Gosto tanto dele que o uso todos os dias. Visto-o, e não o sinto como um tecido exterior, mas como uma segunda pele. Faz parte de mim. Vermelho! Tão vermelho! 
Com o tempo, noto que aquele vermelho-vermelho já não está tão vermelho. Desbotou um pouco. Arranjo os melhores produtos para o tratar, para lhe devolver a cor. Ilusoriamente, por momentos, parece ter regressado à cor original, mas no meu íntimo sei que assim não é. Mas continuo a usá-lo. Afinal, é o meu vestido vermelho, a minha pele.
A palidez do vermelho acentua-se e já há quem lhe chame cor-de-rosa. Corrijo, dizendo que é vermelho. Não sei bem quem tento enganar, se os outros ou a mim. Fechando os olhos com força, com muita força, consigo imaginá-lo vermelho-vermelho, como era, e reviver aquele momento em que o vi e senti pela primeira vez. Mas já não me faz sorrir. As lágrimas caem, mas digo a mim própria que são fruto da força com que fechei os olhos, apesar do seu sabor salgado ser bem real, e trazerem consigo reflexos vermelhos que se dissolvem. 
Cada dia o vermelho abandona mais o vestido. Tem já uma cor indefinida. Insisto em continuar a usá-lo, mas já não o sinto como uma segunda pele. Os meus passos já não são alegres e saltitantes, mas arrastados e pesados. Já não é o meu vestido vermelho. Esse, desapareceu. Fui eu que o gastei ou foi o tempo? Não sei. 
Agora, tenho de decidir o que fazer com ele. Continuo a usá-lo, mesmo não o sentindo como meu, arrumo-o numa caixa envolto em delicado papel de seda e guardo-o no armário das recordações, ou simplesmente me desfaço dele? Aquele vestido alegrou tantos dos meus dias, enchendo-os de cor! Vou guardá-lo, e por fora, na caixa, vou escrever o seu nome, com a letra mais bonita que sei fazer.

Por vezes, é isto que acontece com o que sentimos por outra pessoa. Transforma-se, gasta-se, acaba, seja o que for. O vermelho desbota e desaparece. Podemos tentar ser daltónicos. Podemos enganar-nos. Podemos querer que caia chuva daquela cor para o pintar de novo. Talvez tudo isso seja possível. Talvez não. Muitas vezes as pessoas insistem em querer acreditar que  é possível, quando nem elas acreditam. Fecham os olhos e vivem a ilusão da não-cor. Batem a várias portas, na esperança de encontrar uns olhos que vejam a cor que não está lá. Vermelho, ou assim-assim...

17 comentários:

Soraia Silva disse...

percebi logo que ias igualar ao sentimento humano.

é sempre assim, fingimos ou ignoramos o que está a acontecer, querendo ter sempre a imagem que gostamos, que achamos perfeita perante nós.

as coisas gastam, perdem o seu verdadeiro feitio, mas os momentos com que passammos ficam sempre guardadas, numa caixinha, bem protegida, quanto mais nao seja para recordaçao...

beijinho

João Lopes disse...

Antes de mais, obrigado pela visita...
É bom saber que somos lidos por pessoas que, como tu, dedicam um pouco do seu tempo a partilhar ideias e pensamentos aqui no mundo Bloguer. Gosto da ideia de partilha gerada nestes espaços.

Tenho acompanhado o "A cup of thoughts" diariamente. Gosto da maneira de como constróis um raciocínio, sólido e lógico, de simples coisas do dia a dia.
No fim de os ler-mos fazem todo o sentido!
Gosto deste tipo de pensamentos...
E como tal, tenho me deliciado com os teus textos =)

Um Beijo e os meus parabéns pela excelente escrita!

Ps: Aprendi uma coisa aqui à uns tempos! E acho que faz todo o sentido ser dito neste post... A cor, vista pelos nossos olhos, depende directamente da fonte de luz que nela incide(quantidade e intensidade).
No escuro nenhuma cor é perceptível. E com pouca luz, pode ser modificada(Vermelho deixar de ser o "vermelho-vermelho" e passar a ser um vermelho escurecido).
Sendo assim, o vermelho só é uma cor alegre vista debaixo de uma forte fonte de luz! No escuro fica sem vida =)

mjf disse...

Olá!
È verdade:=(
Por vezes os cegos, somos nós que não queremos ver!!!

Beijocas

Rafeiro Perfumado disse...

Nessa altura o melhor é encarar a realidade e ir novamente "às compras". Beijoca!

JFDourado disse...

Como tens razão no que escreves… Às vezes é tão difícil compreender que, por mais que tentemos, as coisas não voltam a ser como eram. E que o melhor que podemos fazer, é guardar o que de bom ficou e deixar que o tempo faça o seu trabalho.
E há mais vestidos vermelhos por aí. E Lindíssimos! :)*

Gaja com G maiúsculo disse...

Minha querida NIRVANA, antes de mais um Abraço enorme! Amei este texto, senti que poderia ter sido eu a escrevê-lo, neste momento o meu vestido também já não é vermelho, mas um rosa algo gasto e corroído pelo tempo.

Parabéns pela forma, sensibilidade com que abordaste o tema, pela analogia que está perfeita, ou não fosses TU a escrever estas palavras.

Penso que a vida é mesmo assim, pior é quando um dos lados ainda tem o sentimento bem presente e vivo e o outro gasto, mas como eu costumo dizer, tudo é experiência e aprendizado.

Beijinhos Enormes

Sonhadora disse...

Quando era miúda, tive um vestido vermelho e branco que adorava, podia andar todos os dias com ele que não me importava!
Concordo contigo, muitas vezes nós não queremos ver a realidade, preferimos ver tudo cor de rosa e iludirmo-nos, mas do que serve? Só nos estamos a emganar, mas será smp por pouco tmp por mais dia menos dia a realidade será vista como realidade! Os sentimentos desgastam-se, claro que sim, até nós nos desgastamos com o tempo!
Beijocas

Rita G. disse...

Adorei o post, e acho que todos nós se revemos nele em algum aspecto da nossa vida...às vezes tentamos olhar para as coisas como elas eram e não como são hoje...Bj:)

Libelinha☆ disse...

Estava a ler e parecia que adivinhava o que vinha a seguir... É sem dúvida uma realidade que muitos não querem ver!...

Beijinhos ;P

L'Enfant Terrible disse...

Há muitas coisas na vida que se desgastam, por vezes o sentimento é uma delas, felizmente fica a memória, não do que é presente, mas do passado!

by "A Invisível" disse...

Querida Amiga Nirvana;

Para quê insistir em tentar ver uma coisa que já não existe?!
Nada melhor, que vermos as coisas da "cor" que elas são. Seja vermelho vivo, seja vermelho gasto.
Por muito que tentemos, será mesmo possível enganar-nos a nós próprios? Não será preferível ver a verdade como ela é, por muito que nos custe?...
Sou a favor da renovação. Do seguir em frente e não olhar para trás. Há coisas que simplesmente não se pode voltar atrás e revive-las. Não da mesma forma e sentido.

Viva o "hoje", o "agora"!

Beijinho enorme minha Amiga*

S. disse...

O melhor a fazer é entender que há coisas que não podemos mudar, tal como não podemos fazer o vestido ficar mais vermelho, também não podemos fazer com os sentimentos andem para trás.

Depois é aceitar e seguir em frente, em busca de um novo vestido vermelho que nos faça sentir felizes.

Beijinhos grandes

Canhota! disse...

O bom disto tudo é que quando ele tinha uma bonita cor vermelho nos fez sorrir, nos fez gostar dele, nos fez a mulher mais linda do mundo...perdeu a cor? não faz mal, custa sem ficar com o que gostavamos...doi termos que nos desfazer do mesmo...podemos chorar pelos bons momentos que passamos juntos...mas olhar para frente...guardá-lo num cantinho especial...recordarmos os bons momentos e irmos a procura de um outro com uma outra cor!!

lindo este texto, adorei!
obrigada!

jinhos:)

Mariana marciana disse...

Nirvaninha linda,
Que texto bonito...
Tudo se altera com o tempo, aquela fotografia perfeita começa a ganhar algumas manchas e a desbotar... podem acontecer 2 coisas nessa altura:
- olhamos e sorrimos, as recordações são tão doces, cada vez mais, a imagem se identifica connosco, sentimo-nos confortáveis...
- deixamos de nos identificar com o que vemos e sofremos com a mudança...
O que fazer? depende daquilo que sentimos quando paramos e, de facto, olhamos...

joao disse...

Bela analogia! Como se consegue transmitir, com um exemplo tão simples, uma verdade que nem sempre vemos. Um texto encantador!
Um abraço Nirvana

Anónimo disse...

Passei aqui por acaso. Li posts e mais posts. Apaixonei-me!
:)*

Lápis disse...

grande analogia!
Adorei!