segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ela queria ter um jardim...


Ela queria ter um jardim. Resquícios, talvez, da infância passada na aldeia, em que corria pelos campos, descalça, sentindo o calor e a humidade da terra na pele, em que apreciava cada flor, em que chamava a cada uma delas sua. 

Ela queria ter um jardim. Não muito grande, não idealizado melhor arquitecto paisagista. Queria um jardim grande o suficiente para plantar as suas plantas, as suas flores, desenhar os seus canteiros. 

Ela queria ter um jardim. E merecia tê-lo. Amava as flores. Quantas pessoas tinham jardins lindos e enormes, e nem sequer olhavam para eles?

Ela queria ter um jardim. Mas não tinha.

Um dia, alguém lhe ofereceu um vaso, uma planta num vaso. Um vaso pequeno, uma planta pequena. Imaginando o jardim que queria, o vaso tornava-se ainda mais pequeno. Colocou-o em qualquer canto, esqueceu-se dele. A planta, essa, depois de se aguentar estoicamente durante semanas, sem água e sem cuidados, acabou por definhar.

Ela queria ter um jardim. Adormeceu a sonhar com ele. E sonhou... Sonhou com o dia em que lhe ofereceram um vaso e ela o colocou na varanda, num lugar especial, resguardado do frio e do vento. Sonhou com o dia em que a planta tinha crescido tanto que precisava de um vaso maior. Sonhou com o dia em que a planta teve as primeiras flores. Lindas! Sonhou com o dia em que encontrou outros pequenos vasos e os levou para casa. Sonhou com a felicidade que sentia com cada um dos seus vasos. Sonhou com o dia em que olhou para a sua pequena varanda e viu o seu jardim. 

Acordou com um sorriso, e foi, rapidamente, buscar o pequeno vaso que lhe tinham oferecido. Talvez... Talvez ainda o conseguisse recuperar.


Quantas vezes queremos tudo? Sonhamos o sonho, idealizamos a perfeição, o todo, o tudo, e não nos contentamos com menos. Não! Queremos tudo. Queremos tanto tudo que nos esquecemos. Esquecemo-nos que o todo é formado por partes, que são, cada uma delas, especiais, nossas, que requerem, todas elas, a mesma atenção. Esquecemo-nos que não devemos chorar porque não temos o jardim, mas sim ficar felizes porque temos o vaso.

11 comentários:

Bloguótico disse...

... e se não tivermos o vaso teremos, pelo menos, a terra!!! :D

Libelinha☆ disse...

Adoro estes teus textos... Fiquei sem palavras!...

Beijinhos ;P

Di disse...

Quantas vezes...

Mas o Bloguótico tem razão, não temos um vaso, mas temos a terra. Temos o potencial de gerar aquilo que queremos. Temos é de ter força para tentar :)

Beijo grande*

Girl in the Clouds disse...

Este texto está fantástico, tal como muitos outros que escreves!! E, é verdade temos que nos contentar com o que temos e dar valor às pequenas coisas!!

Rafeiro Perfumado disse...

Espero que a planta a tenha metido em tribunal, por negligência grosseira!

Rita G. disse...

De facto temos tendência para querer e desejar aquilo que não temos, e esquecemo-nos de olhar para aquilo que de facto faz parte da nossa vida, as pequenas coisas que são tão importantes. Bj:)

joao disse...

Mais uma vez consegues com exemplos tão simples transmitir mensagens tão importantes. Muito bom.
Um grande abraço

Mariana marciana disse...

És feia... agora fizeste-me pensar numa coisa que não queria... e senti-me um bocadinho infantil...
Tens um dom amiga... vou passar a chamar-te "grilo"!!
beijocas enormes!

S. disse...

Quantas, quantas vezes... tens tanta razão amiga.

Beijinhos grandes e claro que adorei o texto.

Canhota! disse...

Querida Nirvana!

Como sempre ADOREI! e olha a continuares a escrever assim..as mensagens que transmites...eu fico mesmo uma "Madalena"!!!

ADOREI! Lindo!

obrigada e jinhos:)

Psiuuuu!!Sou eu! disse...

é isso mesmo, os sonhos não nos aparecem concretizados no seu todo e de mão beijada, é preciso conquistá-los, lutar por eles e não esquecer que um "simples vaso" pode ser o principio da concretização de um grande sonho... Mais uma vez gostei da reflexão e fez-me pensar també :)
Bjito