sábado, 25 de setembro de 2010

Puzzles

Quando o meu filho começou a fazer puzzles e aquilo não corria bem, as suas reacções variavam:  baralhava as peças todas com um "não gosto"; zangava-se e atirava com as peças para o chão com um "não presta"; tentava a toda a força encaixar uma peça que não se ajustava àquele sítio, carregando e carregando; fazia batota e colocava a peça por cima, muito direitinha mas sem a encaixar. Pacientemente, tentava ajudá-lo, recomeçando o puzzle, explicando-lhe que aquela peça não era ali, que cada peça tinha o seu lugar e tinha de encaixar sem esforço. Colocando a peça noutro lugar, o desenho não ficava bem e essa peça iria fazer falta noutro sítio, esse sim o lugar dela.

A nossa vida não é muito diferente de um puzzle, com dezenas, centenas, milhares de peças, as que quisermos, as que tivermos. E muitas vezes, as nossas reacções, quando uma dessas peças não encaixa onde queríamos, não são muito diferentes das reacções das crianças. Por vezes basta essa única peça para baralhar todas as outras, para nos deitar ao chão, para nos dar vontade de destruir muito do que já tinhamos construído. Outras vezes, teimamos e teimamos em colocar essa peça onde sabemos que não cabe. Arranjamos mil e uma desculpas para ela ficar ali. Usamos toda a força para conseguir encaixá-la. Por vezes, com muito esforço até conseguimos, mas ficou tão apertada que logo salta, qual boneco de molas. Viramo-la de todos os lados, se for preciso cortamos um ou outro bocado para que caiba ali, ou deixamo-la pousada, sem qualquer suporte, pronta para voar com a primeira brisa, uma peça de faz-de-conta. Tal como nos puzzles, a tentativa e o erro fazem parte da construção. Tal como nos puzzles, se uma peça não encaixa, não adianta forçá-la, porque o seu lugar não é ali. Tal como nos puzzles, por vezes aparecem peças que, naquele momento, ainda não têm o seu lugar, ainda não sabemos onde são. É preciso colocar mais peças até chegar a essa. É preciso saber esperar. Tal como nos puzzles, não vale a pena querer fazer batota, fechar os olhos e fazer de conta que está bem. Tal como nos puzzles, essa peça que não está no seu lugar tem, algures, o seu lugar à espera, vazio.

Por vezes sinto-me como uma criança, com um puzzle enorme à minha frente, com parte já construído, partes destruídas e reconstruídas, partes ainda vazias e ainda tantas peças à espera de encontrar o seu lugar. 

23 comentários:

João Lopes disse...

Lindo!
Nunca fui grande fã de puzzle's...
Se calhar é um dos meus problemas... o não ter paciência para juntar peças...
Espero sempre que elas se encaixem, ou que alguém as encaixe por mim.

Puseste-me a pensar... =P

Um beijo e parabéns pelo excelente texto... eu adorei

Neisseria Gonorrhoeae disse...

Um dos melhores posts que li.

Parabéns pela analogia. É mesmo isso a vida.

esta, serve-me muito bem, é um barrete que me fica perfeito.

Jinhos

Mariana marciana disse...

Nirvanita,
tu és uma verdadeira Álvaro de Campos: "Ah e tal... eu só observo... só digo o que vejo...".
És fantástica!
E não sei bem porquê mas cada post teu encaixa no dia e na hora certa... nem sabes, mas tens-te revelado uma amiga inestimável ;)
Thanks

S. disse...

Nem imaginas como estas palavras tocaram o meu coração que anda assim bem apertadinho.

Beijinhos grandes querida e obrigada pelas coisas lindas que escreves

JFDourado disse...

Já te disse que gosto muito de ler as tuas reflexões?
Julgo que sim e volto a dizê-lo porque este texto bem o merece :)*

Checa disse...

Querida Nirvana

O problema deste puzzle é que não é limitado ao nºde peças da caixa, a diferença é que a vida não terá de ser projectada como a caixa. E mais, se perdermos, danificar-mos ou destruirmos uma peça nunca mais a poderemos substituir, porque não há mais nenhum puzzle igual ao nosso.
Olha, que ao menos o meu,o teu puzzle e o de todos nós seja grande!

Beijinhos amiga!

by "A Invisível" disse...

E eu admito que por vezes tento encaixar algumas peças, que a priori sei que não se encaixarão naquele lugar...
Talvez por teimosia. Mas com o tempo, tenho aceitado que cada parte do puzzle da vida, tem o seu lugar destinado e não dá para ser substituído.
Estamos sempre a aprender. ;)

P.S. - Mais uma analogia excelente!

Beijinho Amiga e irmã di mi corazon!

Poetic GIRL disse...

Eu estou a refazer o puzzle da minha vida ;) também eu insisti em encaixar peças que não estavam simplesmente destinadas.... bjs

Anónimo disse...

Querida Nirvana,

Concordo com cada palavra deste teu maravilhoso texto. Ele é uma forma muito simples e transparente de explicarmos a vida, por vezes tão complexa e baralhada.
Só é pena que certas pessoas, ao invés de tentarem encaixar as peças do seu próprio puzzle, percam tempo a retirar peças dos puzzles de outras pessoas que estavam correctamente colocadas.
Claro que o nosso puzzle fica algo baralhado, mas com a nossa paciência e determinação, mais cedo ou mais tarde volta tudo ao seu lugar.
É como me sinto neste momento. Com as peças do puzzle bem ordenadas e colocadas.
Já certas pessoas não poderão dizer o mesmo, pois continuam a tentar destruir aquilo que foi reconstruído.
São essas pessoas que fazem pena. A raiva... mentiria se dissesse que nunca a sentira... mas já lá vai.
Continua a escrever os teus maravilhosos textos.
Já não passo sem o teu blog.
Bjs

Rita G. disse...

Adorei o texto:) Tens razão em td o que dizes, mas acima de tudo é preciso ter calma e paciência para ir construindo o puzzle da nossa vida todos os dias. bj:)

clara disse...

Grande verdade!
Tenho que pensar nisso mais vezes e tentar bater menos com a cabeça

Nirvana disse...

João
Obrigada :)
Muitas vezes as peças acabam por se encaixar por si mesmas. Mas não nos podemos esquecer que os verdadeiros autores da nossa vida somos nós. Deixar a vida acontecer, as peças encaixarem por si é uma arte, para a qual a maior parte das pessoas não tem paciência. Mau é quando queremos encaixar peças no lugar errado uma e outra vez.
Be happy! :)

Beijinhos

Nirvana disse...

Neisseria
Peças que encaixamos, tal como os miúdos. Vamos crescendo e a capacidade para o fazer deve ir aumentando também.
Beijinhos e obrigada :)

Nirvana disse...

Marianinha
Obrigada :)
Fico feliz com as tuas palavras :). Há aquelas empatias que sentimos aqui, tal como na vida real. Desde que aterraste a tua nave que me tornei frequentadora habitual de Marte! ;)
Muito do que escrevo aqui são reflexões de coisas que se passam ou passaram comigo, ou coisas que observo à minha volta. Isso é verdade.
Fizeste-me rir com a comparação, :))
Beijinho grande, Mariana

Nirvana disse...

Szinha
Estás a construir o teu puzzle, e tenho a certeza que vai ficar bem bonito!
Beijinho grande

Nirvana disse...

JFDourado
Obrigada :)
Beijinhos

Nirvana disse...

Querida Checa
E não temos um desenho a seguir, para nos orientar. Por um lado, podemos desorientar-nos de vez em quando, mas por outro lado, podemos sempre mudar o desenho.
E sim, que os nossos puzzles sejam grandes e LINDOS! :)
Beijinho grande

Nirvana disse...

Querida Invisível
Acho que todos nós já o fizemos. Eu até martelo usei! Mas, como dizes, estamos sempre a aprender, e aprendi que não vale a pena. Muitas vezes custa aceitar que há coisas que não têm de ser, não adianta o quanto queiramos.
Beijinhos, minha querida, querida Amiga

Nirvana disse...

Poetic Girl
Acho que é assim que acabamos por construir o puzzle final. Construindo e reconstruindo o que é preciso. E, tal como em tudo, reconstruir pode dar mais trabalho, custar mais, mas depois o resultado final é também mais gratificante.
Beijinhos

Nirvana disse...

Caro Anónimo
Sim, há pessoas assim. Mas penso que o que acontece a essas pessoas é que, um dia, olham para trás e vêem que não construiram nada, não têm nada, têm um buraco, vazio, onde deviam ter vivências, vida.
Há uns tempos o meu puzzle foi todo, pelo ar. Ou melhor, quase todo. As bases, os alicerces, ou seja eu, ficou. Abalada, tremida, e demorou o seu tempo a pegar outra vez nas peças e querer construir alguma coisa. Mas penso também que há uma altura para tudo, e que por vezes é necessário mesmo esperar. As tais peças que precisam de outras à volta para depois sim, ocuparem o seu lugar.
Obrigada pelos comentários.
Mas às vezes escrevo muitas asneiras, coisas sem sentido, etc
Beijinhos

Nirvana disse...

Ritinha
Penso que por vezes queremos correr mais do que a própria vida! Tanto, que até nos atropelamos. Eu pelo menos já me atropelei muitas vezes.
Beijinhos, linda

Nirvana disse...

Olá, Clara
Obrigada pela visita.
Acho que todos nós, de vez em quando, damos com a cabeça na parede, e a verdade é que por vezes só assim aprendemos. Continuar a fazer o mesmo, mesmo quando sabemos que nos faz mal é que é um erro. Um grande erro, na minha opinião.
Beijinhos

joao disse...

Mais um post à Nirvana. Com isto quero dizer um texto com uma simplicidade, coerência, suavidade, realidade que só encontro aqui.Neste e em outros posts que já li.
Um abraço