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sexta-feira, 18 de março de 2011

Oportunidades...

Não tarda muito estamos na Páscoa e por aqui ainda se vai no Natal!! Da Páscoa ao Verão é um saltinho e depois já se está quase no Natal outra vez. O Natal é intemporal e quando o Homem quer, por isso, seria um tema sempre actual, seja em que altura for. :-)

Faz-me pensar que um ano passa realmente demasiado depressa. Um ano parece tanto tempo e, afinal, é tão pouco. Menos será ainda se chegarmos ao dia 31 de Dezembro, brindarmos a um novo ano sem termos um motivo para brindarmos ao ano que passou. Por pior que nos corram as coisas (e, francamente, a situação do país preocupa-me cada vez mais), por mais que não consigamos realizar os nossos objectivos, que não seja por não termos lutado, que não seja por termos baixado os braços e deixado a vida passar por nós. Porque por vezes só temos uma oportunidade. Uma oportunidade para ser, para fazer, para ouvir, para sentir. Uma oportunidade para fazer a diferença na vida das pessoas. Uma oportunidade para que façam a diferença na nossa vida. Uma oportunidade para fazer o que devíamos fazer. Uma oportunidade para dizer o que precisamos dizer.  Uma oportunidade para agarrar os nossos sonhos. Por vezes essa oportunidade passa-nos ao lado sem a vermos sequer. Outras, salta à nossa frente, está mesmo ali, tão ali que nem acreditamos. Adiamos para depois, pelas mais variadas razões: porque não é o momento certo, porque não temos tempo, porque se calhar poderá aparecer outra oportunidade. Uma melhor, pensamos. Mas muitas vezes as oportunidades não se repetem. Só temos uma. E mais nenhuma.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

É isso...

 
Depois de tanto tempo sem escrever, os dedos agitam-se, nervosos. Atrapalham-se. Escrevem frases sem nexo. Apagam. Voltam a escrever mais palavras sem sentido. Saudades de escrever, tentaram eles dizer tantas vezes. Mas os dedos, mesmo sendo dez, cinco em cada mão, nada podem fazer sozinhos. Apesar de serem eles a fazer a maior parte do trabalho, a carregar em cada tecla, formando palavras, frases, textos... Precisam que a cabeça lhes diga o que escrever e essa... essa é só uma, mas consegue ser pior do que dez dedos. Os dedos apenas precisam que lhes seja dada uma folha, um teclado, uma tela ou simplesmente a areia da praia... que os deixem livres, que os deixem sonhar, que os deixem viajar.

Este blog esteve completamente ao abandono durante muito tempo. Tal como por vezes temos necessidade de dizer algo, outras sentimos necessidade de nada dizer. Por vezes o silêncio é a única forma de comunicar, e o silêncio das palavras escritas é igual ao silêncio das palavras faladas. Há momentos da nossa vida em que ficamos com uma sensação indefinível de tristeza, de nostalgia, em que nos sentimos insignificantes perante a grandeza do universo, da vida. Momentos em que nos questionamos enquanto pessoas, em que perguntamos o significado dessa vida, em que perguntamos para onde vamos, obrigando-nos a pensar de onde vimos e onde estamos. Porque é fácil perdermo-nos, mesmo quando não queremos. Olhamos em volta e vemos que tudo é "perdível". Lembramos o que perdemos e tememos pelo que podemos perder. Mas percebemos cada vez mais que o que realmente tem valor são coisas que os olhos não vêem, coisas que não se medem, não se pesam, não se compram nem se vendem: o amor, a amizade, a felicidade. Estas são as coisas que apenas o coração consegue ver, ouvir e sentir. É isso o que levamos, de facto, deste mundo. É isso que nos acompanha nos momentos maus. É isso que nos faz sorrir nos momentos bons. É isso que nos faz viver.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Ciclo da vida...

O ciclo da vida é incontornável: nascemos, vivemos, morremos. E a vida continua no planeta Terra, pelo menos enquanto não o conseguirmos destruir completamente. De uma ponta à outra deste ciclo, vamos acumulando experiências, vamos dando, recebendo, rindo, chorando, vivenciando momentos mais ou menos bons, enfim, aquilo a que chamamos viver. Como companhia ao longo deste tempo todo, temos aquela pessoa que acorda e adormece connosco todos os dias, que nasce e morre connosco, mesmo quando morremos só um pouco, mesmo quando renascemos - nós próprios. E temos as outras pessoas que fazem parte do nosso mundo, cada uma à sua maneira. No entanto, e apesar de conhecermos sobejamente o ciclo da vida, esquecemo-nos muitas vezes que os anos passam, as pessoas envelhecem e a lei normal da vida é um dia deixarem-nos. E, por vezes, perdemos pessoas que foram importantes para nós, pessoas que se tornaram parte de nós, pessoas que nos transmitiram tantas coisas boas que só a sua recordação nos faz sorrir, mesmo quando o coração está carregado de saudade e os olhos de lágrimas. Na verdade,  penso que nunca estamos preparados para perder quem amamos. Haverá alguma forma de o estar? Penso que, se existe, chama-se AMAR. Amar enquanto é tempo, amar enquanto há vida. Depois... Depois apenas resta a saudade,  sentimento doloroso mas  que encontra conforto no amor que se teve e se deu, ou o arrependimento pelo que não dissemos ou não fizemos, pelo que dissemos ou fizemos. Prefiro a saudade. Como canta Mariza nesta música linda: 

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades

Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir 


Há gente que fica na história
da história da gente

e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir 


São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder 


Há dias que marcam a alma
e a vida da gente

e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer 

.......................................................

terça-feira, 26 de outubro de 2010

...


Quando alguém sobrevive a uma morte quase certa, como a queda de um avião, há quem lhe chame sorte, há quem lhe chame milagre, há quem diga que ainda não tinha chegado a sua hora. Porque dizem, ainda não cumpriram a sua missão por aqui. Porque, dizem, todos temos uma missão. Há uns anos, ao ler Ilusões, de Richard Bach, li qualquer coisa parecida com: se estás vivo, é porque a tua missão na Terra não está cumprida. Lembro-me que na altura pensei "espero cumprir a minha muito tarde" (Esperteza saloia...).

Nos últimos dias tenho pensado nisto. Ao cruzar-me com tantas pessoas na rua, no trabalho, tenho-me perguntado se todas essas pessoas se questionarão sobre o que fazem aqui. Tantas missões que andam por aí! Mas, tenho para mim, que a palavra missão não tem de ser uma palavra grande, vistosa, que atravesse continentes e oceanos. A palavra missão pode ser pequena e ter o alcance de um passo, de um abraço, de uma palavra.  Muitas vezes, não são precisos grandes feitos, não são precisos grandes esforços. Muitas vezes essa missão pode ser apenas a simplicidade, o sorriso que nos espera sempre, o carinho que nos acompanha, a mão que nos ampara. Ao olhar para a vida de algumas pessoas, pode-nos parecer que fizeram pouco nesta vida. Que tiveram um papel secundário. Mas, para as pessoas cuja vida foi tocada por essa vida, esse aparente papel secundário foi primordial. Este mundo louco em que vivemos seria bem pior sem estas pessoas, anónimas para muita gente, menos para os seus. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

By The Way XCI - Walk a mile in my shoes

Todos nós analisamos, avaliamos, fazemos juízos de valor. É inevitável, penso eu. Desde crianças, somos confrontados com o mundo, com as pessoas, com informação e mais informação. Vemos, ouvimos, vivemos, filtramos, seleccionamos, assimilamos. E avaliamos conforme os nossos princípios, os nossos gostos, as nossas crenças, a nossa realidade. Até conforme o nosso estado de espírito. Por vezes coisas que, em dias mais solarengos nos passariam ao lado com um encolher de ombros e até um sorriso, em dias mais sombrios podem-nos levar a pensamentos e palavras menos simpáticas. Claro que nós, mulheres, podemos sempre culpar as hormonas por não estarmos de tão bom humor! É do conhecimento geral que estas meninas têm vontade própria, livrando-nos a nós de toda e qualquer culpa! 

Mas, voltando às avaliações, quando avaliamos ou julgamos alguém, não nos podemos considerar donos e senhores do saber.  Se nos achamos no direito de julgar alguém, devemos achar também que não devemos nem podemos fazê-lo impunemente, que podemos não conhecer todas as circunstâncias que rodeiam uma ou outra situação.  As pessoas são, ou podem ser, mais do que aquilo que mostram. O facto de as pessoas não andarem a apregoar os seus problemas em cada esquina, não quer dizer que não os tenham. O facto de as pessoas se esforçarem por não esmorecerem, por não quebrarem, por tentarem manter esperança, por tentarem viver a vida o melhor possível, não quer dizer que as suas vidas sejam rosas sem espinhos. Não seria má ideia se, de vez em quando, antes de a boca se abrir para criticar ou julgar, as pessoas tentassem, pelo menos tentassem, pôr-se no lugar dos outros e Walk a mile in their shoes.

By the way, esta música dos Fingertips é fantástica!


I'd like to show you my world 
For you to see how I feel
.......
Walk a mile in my shoes
 
And what will you do when it's over? 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quedas e Feridas...

Quando caímos, das primeiras coisas que fazemos é tentar perceber porque e como caímos, e avaliar os estragos resultantes da queda. Não é só o tamanho da queda que é importante. Podemos dar uma grande queda e escapar sem um arranhão, ou podemos apenas tropeçar e aleijar-nos a sério. Depende da forma como caímos, da nossa maior ou menor resistência, do terreno em que aterramos, dos obstáculos que encontramos em pleno voo descendente. Dependerá também da sorte, talvez.
Muitas vezes não são os grandes obstáculos que nos fazem cair. Esses, vêem-se à distância, estamos prevenidos contra eles. Por vezes, podemos até avaliar e ver se vale a pena ou não dispender tempo e energia a ultrapassá-los, arriscar ferir-nos. Não raramente são as coisas pequenas que nos fazem cair em grande. São tão pequenas que não as vemos a não ser quando nos acertam com força, ou quando nós acertamos nelas. Nem sempre conseguimos equilibrar-nos a tempo e evitar a queda. Caímos, levantamo-nos, continuamos em frente. Mas nem sempre damos às feridas que daí resultam a atenção devida. Se os pequenos arranhões não precisam de grandes cuidados, o mesmo não acontece com as feridas maiores. Deixadas à sua sorte, podem trazer resultados não esperados. Uma ferida não tratada demora muito mais a cicatrizar. Quantas vezes parece que está quase curada e a sua crosta cai porque se encontra desprotegida, e a ferida continua por curar. Porque a ignoramos. Porque nos queremos mostrar fortes. Porque não queremos admitir mesmo para nós próprios que ela está ali. Não adianta muito, digo eu, assim como não adianta comparar as nossas quedas e as nossas feridas com as dos outros. Ferimo-nos de maneiras diferentes e cicatrizamos de maneira diferente.   
Podemos não querer que a ferida cicatrize, para nos lembrar sempre que não podemos voltar a cair no mesmo sítio, ou porque gostamos de sofrer, mexendo constantemente na ferida para que permaneça ali, bem viva. Esta será, talvez, a pior forma. 
Podemos esperar que, um dia, a pele esteja tão calejada que seja qual for a queda, nada lhe acontecerá. Mas, não será que a pele ao tornar-se assim tão dura não perde também a sensibilidade, a capacidade de sentir? 
Ou podemos acreditar que é normal, depois de uma queda, ter uma ou outra ferida para tratar, assim como acreditar que o primeiro passo para a tratar é olhar para ela.

sábado, 25 de setembro de 2010

Puzzles

Quando o meu filho começou a fazer puzzles e aquilo não corria bem, as suas reacções variavam:  baralhava as peças todas com um "não gosto"; zangava-se e atirava com as peças para o chão com um "não presta"; tentava a toda a força encaixar uma peça que não se ajustava àquele sítio, carregando e carregando; fazia batota e colocava a peça por cima, muito direitinha mas sem a encaixar. Pacientemente, tentava ajudá-lo, recomeçando o puzzle, explicando-lhe que aquela peça não era ali, que cada peça tinha o seu lugar e tinha de encaixar sem esforço. Colocando a peça noutro lugar, o desenho não ficava bem e essa peça iria fazer falta noutro sítio, esse sim o lugar dela.

A nossa vida não é muito diferente de um puzzle, com dezenas, centenas, milhares de peças, as que quisermos, as que tivermos. E muitas vezes, as nossas reacções, quando uma dessas peças não encaixa onde queríamos, não são muito diferentes das reacções das crianças. Por vezes basta essa única peça para baralhar todas as outras, para nos deitar ao chão, para nos dar vontade de destruir muito do que já tinhamos construído. Outras vezes, teimamos e teimamos em colocar essa peça onde sabemos que não cabe. Arranjamos mil e uma desculpas para ela ficar ali. Usamos toda a força para conseguir encaixá-la. Por vezes, com muito esforço até conseguimos, mas ficou tão apertada que logo salta, qual boneco de molas. Viramo-la de todos os lados, se for preciso cortamos um ou outro bocado para que caiba ali, ou deixamo-la pousada, sem qualquer suporte, pronta para voar com a primeira brisa, uma peça de faz-de-conta. Tal como nos puzzles, a tentativa e o erro fazem parte da construção. Tal como nos puzzles, se uma peça não encaixa, não adianta forçá-la, porque o seu lugar não é ali. Tal como nos puzzles, por vezes aparecem peças que, naquele momento, ainda não têm o seu lugar, ainda não sabemos onde são. É preciso colocar mais peças até chegar a essa. É preciso saber esperar. Tal como nos puzzles, não vale a pena querer fazer batota, fechar os olhos e fazer de conta que está bem. Tal como nos puzzles, essa peça que não está no seu lugar tem, algures, o seu lugar à espera, vazio.

Por vezes sinto-me como uma criança, com um puzzle enorme à minha frente, com parte já construído, partes destruídas e reconstruídas, partes ainda vazias e ainda tantas peças à espera de encontrar o seu lugar. 

sábado, 18 de setembro de 2010

Erros errados e erros certos...


Tenho lido muito sobre erros, sobre errar, aprender com os erros. Decisões erradas, palavras erradas, atitudes erradas, pensamentos errados, escolhas erradas, fazem parte da vida. Todos os cometemos. Não gostamos de o fazer, muitas vezes demoramos a reconhecê-los, mas muitas vezes é errando que descobrimos as palavras certas, as atitudes certas, as decisões certas. Estes erros, que são erros, não me assustam. Quando alguém erra, quantas vezes não dizemos "ninguém é perfeito"? Inúmeras vezes. Ninguém também nos inclui a nós, por isso, de certo modo, errar não é assim tão mau. 

Mas também há os erros que não são erros, chamemos-lhe erros certos ou não-erros-chamados-erros. Estes são um pouco mais complicados. Nem sempre o que fazemos é um erro, mesmo que não obtenhamos o resultado pretendido. Podemos ter feito o que era certo, correu mal, acabou pior e lá vai direitinho para o ficheiro dos erros, com o carimbo especial do nunca mais. Fazemos isto muitas vezes inconscientemente, outras, com total consciência do que fazemos. Naquele momento parece-nos um grande erro. Sofremos por causa dele, do que fizemos, do que dissemos, do que não fizemos e do que não dissemos.  Então, e porque a auto-protecção é uma característica intrínseca  do ser humano, procuramos não o fazer novamente. É assim que, por vezes, características nossas que não eram assim tão más se esfumam. Quanto maior for a mágoa resultante desse erro, maior a protecção que colocamos em volta desse ficheiro. Depois, corrigimos este não-erro-chamado-erro com um erro  bem maior, esse sim um erro verdadeiro. Se reconhecer um erro é muitas vezes difícil, reconhecer este tipo de erro é maior ainda. Não porque não saibamos que é um erro. Mais do que saber, sentimo-lo.  Reconhecer um erro  verdadeiro muitas vezes dá até uma certa tranquilidade, esclarecemos dúvidas e perguntas que nos inquietam. Reconhecer um não-erro-chamado-erro dá angústia, desalento. Parece que, mesmo tentando fazer o que achamos certo, erramos sempre. Quando nos baseamos em pressupostos errados, por mais certos que nos tenham parecido, dificilmente acertaremos qualquer coisa. É preciso coragem para o fazer. Mas, como dizia alguém, "coragem não é ausência de medo, mas o julgamento que algo é mais importante do que o medo". É quando queremos que o nunca mais termine agora.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Pessoas que me fazem confusão...


Por vezes é muito difícil explicar por que as pessoas fazem o que fazem ou são como são. Muitas vezes chego à conclusão que não há explicações, muito menos explicações simples. Talvez a vida  seja mesmo demasiado  complicada. Com tantas, tantas pessoas no mundo, cada uma com a sua maneira de pensar e de agir, pretender saber como funciona a sua mente seria impossível. O nosso mundo é consideravelmente mais pequeno. O meu, pelo menos, é, e há alturas em que  gostava que fosse ainda mais pequeno. Não me importava nada de não ter de lidar com certas pessoas. Não me compete a mim julgar. Cada um é como é. Mas tenho o direito de gostar ou não. Assim como os outros têm o mesmo direito em relação a mim. 

Há pessoas que me fazem muita, muita confusão. Mesmo os meus sentimentos em relação a elas são contraditórios, balançando entre a pena, a incredulidade, e a repugnância. São pessoas más. Pessoas que destilam ódio por cada poro do seu corpo. São incapazes, completamente incapazes, de ver alguém bem, feliz, bonito, bem-disposto. Passeiam o seu ódio por cada corredor, cada sala, cada pequeno espaço que ocupem. Lê-se esse ódio nos olhos, ouve-se nas palavras, sente-se nas suas acções. São pessoas amargas, muito amargas. Pergunto-me se em algum momento se sentirão felizes, e chego à conclusão que não. É impossível sê-lo quando só se pensa em como prejudicar os outros, em como lhes roubar a felicidade, a alegria. Como se se pudessem alimentar com a alegria dos outros. Mas nem é isso que acontece. Não se alimentam com a alegria dos outros, alimentam-se com a sua tristeza, com a sua infelicidade. Parecem abutres, esperando o momento certo para desferir o golpe, para aparar o sorriso, para afogar a auto-estima alheia. 

Pergunto-me se isto será determinado genéticamente, se já nascerão assim, não tendo hipótese de lutar contra os genes. Pergunto-me se a vida as fez assim. A vida nem sempre é fácil, ou melhor, raramente é fácil, mas não é fácil para ninguém. É algo tão intrínseco nelas que se calhar é mesmo genético, como a cor dos olhos e do cabelo. "Sou morena,  tenho olhos castanhos, e só estou bem a pôr os outros em baixo". Isto seria muito injusto. É só pintar o cabelo e fica-se ruiva, umas lentes transformam os olhos na cor que se quiser. E o resto, não se pode mudar?  

Acho que é impossível ser feliz assim. Daí o sentimento de pena. Acho que estas pessoas vivem uma vida de constante frustração. São invejosas, têm inveja da felicidade alheia porque não conseguem ser felizes. As únicas culpadas são elas próprias, mas não conseguem ver isso. O seu único objectivo é fazer mal, ofender, criticar, magoar. Pergunto-me se, quando viram costas, já exibem um sorriso de satisfação ou se esperam até estarem sozinhas, longe de outros olhares, para brindarem. Sim, porque brindam sozinhas. São tão amargas que apenas devem beber limonada, não vão correr o risco de adoçar um bocadinho. Tenho cá para mim que podiam pegar nos limões e, em vez de fazerem limonada, podiam fazer um belo gin tónico. O resultado seria, seguramente, melhor.

sábado, 28 de agosto de 2010

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Há dias em que os pensamentos se perdem e eu me perco neles, ou com eles, não sei bem. Dias em que tudo dentro de mim grita tão alto que não me consigo ouvir. Dias em que as ideias em desalinho me desalinham todos os pensamentos. Dias em que gostava de ter o poder de fazer o tempo andar para trás e mudar um instante apenas. É engraçado o poder de um instante. Um breve instante. Um momento que não volta mais, que perdemos, que passou. Um momento que nos torna prisioneiros de si próprio. Um momento que deixamos ser condicionado pela razão. Entre a razão e o coração, que vença a razão! O coração é um tonto, impulsivo, cego, surdo aos ensinamentos do passado. De cicatriz em cicatriz ele esquece-se de tudo. Memória de elefante para umas coisas, memória de recém-nascido para outras. Quando bate, não se lembra de mais nada, apenas bate. Como gosto de ti, coração! Mas, porque tento ignorar-te tanto, dando a mão à razão? Se ao menos esta me fizesse feliz!! A razão é dona do conhecimento, sábia e racional. Tem mais do que memória de elefante, tem também o seu peso, o peso de cem elefantes. E é assim que consegue enterrar bem fundo o coração. Cem elefantes pesam muito!

Por vezes penso que sou a pessoa menos amiga de mim própria que conheço. Como se me recusasse a ser completamente feliz, a fazer as coisas bem. Deixar de ser "eu", este "eu" que se resguarda de qualquer sentimento que possa fazer despertar o outro eu, aquele que mandei de férias há muito tempo, que guardei bem no fundo do baú e fechei com um código ultra-secreto, tão secreto que logo me esqueci dele. O "eu" que tem como missão deixar o outro eu num sítio perfeito, seguro, num mundo só meu, que guardo como se fosse um reino intocável. A mente é dona de estranhos caminhos e armadilhas. Armadilhas poderosas que nos mantêm ali. Nada aparece do acaso, e elas também não, mas como explicar aquilo que só nós compreendemos? Tornam-se inúteis as palavras. Não há palavras que possam fazer compreender. Nem as escritas. Escrevo porque preciso de escrever, sem saber o rumo das minhas palavras. Simplesmente escrevo. Escrevo porque há dias em que o coração grita tão alto que não me consigo ouvir. Nem a ti, razão. E nesses dias, em que não te consigo ouvir, fico perdida, perdida nos pensamentos. Nesses dias o "eu" fica contigo e não o ouço também. Nesses dias apetece-me deixá-lo aí, contigo, onde não o ouça mais.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sentimentos vs Acções


Muitas vezes vivemos como se não tivessemos o poder da escolha. Pensamos saber o resultado de tudo. Pensamos que não vale a pena porque, porque... e por vezes o resto da frase não surge. Encolhemos os ombros e completamos a frase com um encolher de ombros e a resposta porque não vale. Fossemos crianças e não nos contentaríamos com esta resposta. Mas em adultos podemos, porque podemos tudo e nos dá jeito fazê-lo. Obrigamos as crianças a explicar até à exaustão a razão de algumas das suas acções, mas nós não o fazemos, muitas vezes nem perante nós próprios. 

Diz Mário Quintana que não somos culpados pelos nossos sentimentos mas sim pelos nossos actos *. O engraçado é que muitas vezes os nossos sentimentos, os tais pelos quais não somos responsáveis, são bem mais bonitos do que os nossos actos. O sentimento pode ser livre, mesmo quando condicionado, abafado, sufocado, amarfanhado pelos actos. O sentimento vale por si só e é bonito porque surge dentro de nós. Ele não se importa se gostamos ou não, se queremos ou não, não se importa com nada. É um pouco selvagem, o sentimento. Surge sem ser plantado, e muitas vezes cresce sem uma única gota de alimento, mesmo quando nós, com os nossos actos responsáveis, lhe criamos um ambiente pouco propício ao crescimento. Quase me apetecia dizer-lhe que é um chato, um intrometido, um grande teimoso. Quase... Mas como posso chamar-lhe isso se me faz sentir tão bem? Vem perturbar as certezas, decisões e direcções, mas estas parecem-me mais actos. São pensadas e muitas vezes auto-impostas. Não surgem assim, do nada, de um olhar, de um abraço, de um partilhar. De tão pensados, esses actos por vezes são quase automáticos, tipo reflexo condicionado. Quando damos conta estamos transformados em cãezinhos pavlovianos. A mim, acho que só me faltam as orelhas compridas, um focinho alongado, muito pêlo e um faro apurado. 

Sim, as opções são sempre nossas. Sim, somos responsáveis pelos nossos actos. No entanto, tenho cá para mim que por vezes as opções optam sozinhas, seguindo o mesmo circuito de sempre. O problema... O problema são os curto-circuitos.

* "Somos donos dos nossos actos, mas não dos nossos sentimentos.
Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos.
Podemos prometer actos, mas não podemos prometer sentimentos.
Actos são pássaros enjaulados, sentimentos são pássaros em vôo." Mario Quintana

sábado, 31 de julho de 2010

Mensagens que ficam


Um tema que dominou grande parte das conversas de hoje foi a morte de António Feio. A sua mensagem no trailler do filme Contraluz "Se há coisa que costumo dizer é: Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento, agradeçam e não deixem nada por dizer, nada por fazer", circulou por mails e redes sociais. De António Feio não posso dizer muito. Como todos, habituei-me a vê-lo na televisão, com o seu ar simpático, o seu jeito simples e as suas conversas da treta. Ri-me com algumas das suas piadas e admirei a forma como enfrentou a doença. Sempre que li ou ouvi entrevistas dele, nunca o vi queixar-se, sempre vi esperança, determinação e vontade de vencer. Mesmo nas últimas entrevistas, era o sorriso que o acompanhava. Esta mensagem que deixa, entre outras, não poderia ser mais verdadeira na sua simplicidade.

Apesar de sermos donos da nossa vida, de termos a liberdade de fazer as nossas escolhas, o primeiro grande momoneto da nossa vida, um dos mais determinantes, uma vez que sem ele não existiríamos, é completamente independente da nossa vontade: o momento em que começamos a existir. Excepto para quem acredita nas teorias da reencarnação, em que a vida não é assim tão aleatória, em que somos nós, cada um de nós, que escolhe o momento em que volta a viver, o quando e onde nascer, o momento em que nos é dada vida não tem qualquer influência nossa. A partir desse momento, sabemos que o caminho não tem volta. Nascemos, vivemos, morremos. Este último momento também não depende da nossa vontade, na grande maioria dos casos. Deste ciclo da vida simplificado, apenas o viver dependerá de nós. 

Um dos momentos mais angustiantes que passei com o meu filho aconteceu há algum tempo, tinha ele 5 anos. Um dia, enquanto eu trabalhava em casa, estava ele a ver desenhos animados no sofá. Lilo e Stich. De repente começa a chorar compulsivamente, chorava e chorava sem parar. Bastante tempo depois, quando o consegui acalmar um pouco, sem perceber nada do que se passava, lá me disse porque chorava "não quero morrer e não quero que tu morras nunca". Só não chorei também porque não podia fazê-lo à sua frente. Tinha de o acalmar. Como se explica a morte a uma criança de 5 anos sem a fazer chorar ainda mais?

Apesar de a frase "era tão novo" fazer sentido, porque aos 20 anos é-se mais novo que aos 40, aos 40 mais novo que aos 60 ou 70 ou 100, parece-me que nunca  será tarde, será sempre cedo. Que a vida é uma passagem, todos sabemos. Que a morte não é um tema agradável, também. O modo como vivemos essa vida, cada um sabe também. Isto é tudo o que temos, estes momentos que passamos aqui, por este mundo.


terça-feira, 27 de julho de 2010

....


Há alturas na vida, momentos, fases, que são determinantes, que alteram de forma inequívoca o que acontece depois. Seja em termos profissionais, seja em termos pessoais, há momentos que funcionam como um marco entre o antes e o depois.  Esses momentos são, habitualmente, momentos fortes, que nos abalaram, que chocaram com a nossa concepção da vida, do mundo. Nem sempre são momentos maus, por vezes são coisas boas que acontecem. Tenho a impressão que quando são coisas boas não pensamos tanto nelas. Porque o faríamos? Se estamos bem, estamos bem, apenas disfrutamos e não pensamos muito nisso. Quando são coisas más, não. Aí temos de assimilar, gerir, e aprender a seguir em frente. A tristeza, o desgosto, a frustração, o ruir dos sonhos têm um efeito maior, porque implicam geralmente um fim, uma perda, e o luto nunca é fácil. Do esquecer ao estar esquecido vai uma grande distância, geralmente proporcional à importância do que se perdeu.
O antes e o depois nem sempre convivem pacificamente. Muitas vezes mudamos, mesmo sem nos apercebermos. Não falo dos "nunca mais eu vou fazer isto ou aquilo...". Dizemos isto e sentimo-lo até, geralmente na fase de revolta, mas a maior parte das mudanças instalam-se lentamente, vão-se tornando partes de nós. E nem sempre mudamos para melhor. Muitas vezes essas mudanças implicam deixarmos de lado coisas em que acreditávamos, coisas que nos faziam felizes. O depois avança e o antes fica para trás. Somos felizes, à nossa maneira.

Olhando para trás, sei perfeitamente onde está o meu antes e o meu depois. Cresci, mas não me tornei melhor para mim própria,  excluindo constantemente da minha vida qualquer sentimento que hipoteticamente pudesse levar-me de volta ao que era antes. Estava muito confortavelmente instalada no meu depois. Mas a vida surpreende-nos quando menos esperamos, e acontece o que não esperamos, nem queríamos. E, pela primeira vez, não me apetece continuar neste depois que escolhi. Se, quando acontece algo mau pensamos, repensamos e mudamos a nossa percepção do mundo e das pessoas, talvez quando o que acontece não é o que esperavamos, não seja má ideia fazer o mesmo. 

sábado, 24 de julho de 2010

Porque sei que passas aqui de vez em quando...


É fácil pensarmos que sabemos as soluções para os problemas dos outros. Do lado de fora, tudo parece mais fácil, tudo parece lógico e formar uma opinião, dar um conselho, torna-se simples. Por vezes, parece-nos tudo tão fácil que nos apetece quase abanar a pessoa e dizer "como é possível não veres?" Porque há coisas que apenas a pessoa que está a passar por um determinado momento, uma fase, seja o que for, não vê. Não vê porque se encontra embrulhada numa teia que não deixa que os seus olhos vejam o que o seu coração não quer sentir. Pertencentes ao mesmo dono, estes dois orgãos vêem coisas completamente diferentes. É por isso que nós, que estamos de fora, muitas vezes achamos que vemos melhor. Porque vemos com os olhos, e com o coração focado apenas na vontade de ver os nossos amigos bem. Por vezes faço isso, penso em mim como se eu fosse um amigo meu e o que lhe diria naquele momento. Muitas vezes não gosto das respostas. Dar ouvidos ou não a essas respostas será uma decisão a tomar. Mesmo sabendo que são certas , posso teimosamente continuar a enveredar pelo caminho errado. Ou não.  A decisão é minha, as consequências também. 

Por vezes, queremos encontrar nos outros as respostas que apenas nós podemos ter. Procuramos o aconchego das suas palavras, e queremos, queremos tanto que alguém nos diga uma palavra mágica que faça os problemas desaparecerem, levando com eles o peso que sentimos nos ombros e no coração. Mas isso não existe. Por mais amigas que as pessoas sejam, por mais sinceras que sejam as suas palavras, por mais verdadeira que seja a sua amizade, há caminhos que só a própria pessoa pode percorrer. Nem sempre ouvimos o que queremos, mas, principalmente, poucas vezes interiorizamos o que não queremos ouvir. Apenas vemos aquilo que estamos preparados para ver, e muitas vezes essa preparação demora. Ouvimos, sabemos que é certo, mas não sentimos, não queremos sentir, queríamos outra coisa. A não ser que nos liguem à corrente e uma descarga de 1000000 de volts faça uma eliminação selectiva, não vemos, nem conseguimos aceitar o que não sentimos. 

Todo este tempo depois, o que te digo é a mesma coisa. Mas não sou eu que tenho (ou não) de acreditar nisto. És tu.

O amor... Ah! Palavra tão pequena e tão complicada! O amor não se pede, não se mendiga e muito menos se impõe. Existe, ou não existe, e quando existe não é preciso pedir, pois não?  O amor não cobra, o amor dá. O amor não prende, o amor liberta. Liberta para que possas dar o melhor de ti, livremente. O amor não é sempre paixão desenfreada e beijos apaixonados. O amor também é o abraço apertado, a mão no ombro, o estar ali sem ser preciso dizer ou fazer nada, quando a simples presença é tudo. O amor também é paciência. Paciência para quando o outro não está tão bem como devia, para as pequenas falhas, para as pequenas incompreensões. O amor também é preocupação, não só com o próprio umbigo e bem-estar, mas pelo outro. É querer tomar as dores do outro como nossas, ou pelo menos partilhá-las. O amor também é companheirismo, cumplicidade, amizade. É saber ouvir, querer ouvir, e saber falar. O amor não quer uma vida perfeita, o amor quer ser a perfeição quando a imperfeição nos rodeia. O amor é tudo. Como pode o amor fazer-te sentir nada?

É fácil amar quando o caminho que se apresenta pela frente é uma auto-estrada com belas paisagens num dia de sol. Aí, qualquer carro anda. Mas não é aí que se vêem os bons carros. A qualidade de um carro vê-se pela forma como faz as curvas, como enfrenta a chuva e a neve sem derrapar, como ultrapassa os obstáculos mantendo sempre a estabilidade. Não precisa ser um carro último modelo, de pintura imaculada, cheio de extras e acessórios. Precisa ser um carro seguro. Tenho para mim que um belo Ferrari dificilmente se safaria nos Alpes antes de passar o limpa-neves. Sem dúvida, impressionaria alguns aficcionados das máquinas, mas deixaria o seu condutor apeado.

Dizem que é complicado amar. Talvez o complicado seja querer amar, apenas porque se ama aquela pessoa assim, tal como ela é. Mas isto, isto é o que eu penso. Eu, que estou de fora, que apenas vejo com os olhos. O caminho, a vida, é tua. Só tua. E só tu podes decidir que carro queres para percorrer esse caminho. E, sabes, não há mal nenhum em percorrermos parte desse caminho sózinhas.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Don't know what to do


Um dia descobrimos que o inesperado acontece, que não conseguimos controlar tudo, que há coisas que acontecem sem querermos.
Um dia descobrimos que o comum não nos atrai, que há pessoas diferentes, especiais, únicas.
Um dia descobrimos que afinal não tinhamos razão, que não adianta não querer, mesmo que o façamos com todas as forças.
Um dia descobrimos que não somos donos do nosso coração, que ele tem vontade própria e gosta de nos pregar partidas.
Um dia descobrimos que há surpresas boas, mesmo boas, sem artimanhas escondidas, que aparecem quando menos esperamos.
Um dia descobrimos que podem existir momentos perfeitos, tão perfeitos que parecem irreais. Descobrimos que não estamos preparados para eles, não os deixamos ser perfeitos porque a nossa capacidade de acreditar diminuiu tanto que quase não existe.
Um dia descobrimos que há coisas que não só não conseguimos evitar como não queremos evitar.
Um dia descobrimos que... não sabemos o que fazer.

sábado, 17 de julho de 2010

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Às vezes apetece mesmo, mesmo... Apetece tirar os travões,  ignorar os sensores, desligar os sinais de alerta, esquecer as dúvidas, as cautelas, as inseguranças, e arriscar. Até agir contra as probabilidades. Aceitar a probabilidade de cair, descarrilar, esfolar os joelhos, cair de cara no chão.

Os travões são o medo e a sensação de conforto da segurança. A segurança, ou a ideia da mesma, é confortável na sua constância. Mas o preço da segurança pode ser a perda da liberdade, de explorar novos territórios desconhecidos, e a própria vida, com as suas infinitas escolhas. Evitar certos riscos, aceitar as coisas como são, conformarmo-nos, não  sonhar sequer. A segurança, de certa forma, seduz-nos também. Ela anda de mão dada com o equilíbrio. Criamos o nosso espaço, içamos as nossas barreiras, construimos o muro que nos resguarda, e sentimo-nos seguros dentro dele. Não há oscilações, não há altos e baixos, não há desilusões.

O medo... Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar? Quantas vezes perdemos a liberdade e morremos por dentro, apenas por sentirmos medo de abrir a porta dos nossos sonhos? Mas afinal o que é esse medo que tantas vezes nos limita? Existe realmente? Existir, existe. Até tem um nome, por isso existe. Existe dentro de nós. Criado por nós, auto-imposto por nós. E é incrível a capacidade que tantas vezes temos de o alimentar. Se por um lado nos queremos livrar dele, por outro, guardamo-lo, estimamo-lo até e usamo-lo quando nos dá jeito. Usamo-lo como desculpa para justificar o posterior arrependimento. Porque nos arrependemos sempre do que não fazemos. Fica sempre o eterno se a zumbir dentro de nós. Temos medo. Muitas vezes somos nós que criamos os nossos maiores obstáculos, estrategicamente colocados no caminho para justificar a nossa incapacidade de arriscar. Arriscar implica não conhecer todas as variáveis, implica não ser dono de todo o conhecimento, não ser uma relação causa-efeito, mas uma relação com demasiadas variáveis que não controlamos. Pode trazer desilusão, frustração, sofrimento até. O melhor é ficar quietinha no meu canto, na minha segurança. Posso até ficar contente com a minha prudência.  Desculpas que por vezes funcionam, e que, juntamente com o medo e a segurança formam um trio que anda sempre de mão dada.

Mas, por vezes, apetece... Apetece mesmo mandar os travões passearem sozinhos, agir contra as probabilidades, agir a meu favor, querer mais. Acreditar mais. Em mim.

domingo, 11 de julho de 2010

Queria...


Queria ser capaz de esquecer, de tentar pôr para trás das costas todas as coisas que me prendem, ignorar os limites que imponho a mim própria todos os dias.
Queria ser capaz de conseguir dar-me um lugar mais prioritário na minha vida. Transformar os pequenos lapsos de tempo em que isso acontece no tempo que medeia esses lapsos, e não o contrário.
Queria acreditar que posso contar apenas por mim própria. Que tudo o resto, tudo que faz parte do meu mundo, e de mim também, é um factor secundário.
Queria acreditar que os preconceitos não são tidos como verdades, que os rótulos não existem. Que é possível ver mais além. 

Queria... Queria mesmo tudo isto. Algumas coisas dependem apenas de mim, mas por vezes as raízes são tão profundas que já nem se trata de fazer um esforço para arrancá-las. Encontram-se tão enraízadas que se fundem com o solo em volta, esse solo que sou eu,  tudo o que sou, tudo que em mim mudou.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Chuva miudinha...



Em qualquer relação há uma dose de encanto. Em qualquer pessoa que  nos seja mais próxima, há algo que nos encanta. Talvez encanto possa parecer uma palavra algo exagerada (a mim não parece), principalmente ao fim de algum tempo. Talvez lhe comecemos a dar outros nomes, talvez nos habituemos tanto a essa(s) característica(s) que nos encantaram que não pensemos nelas sequer.

A mim, há coisas que me encantam nos meus familiares, nos meus amigos. Encanta-me a ingenuidade da minha tia A., encanta-me a determinação da minha Mãe, encanta-me tudo no meu Prozac, encanta-me a maneira se ser linda do J., a postura protectora do R., a sinceridade e a "loucura" da I.,  a alegria da A., e tantas outras coisas. Assim como me encantaram pessoas que deixaram de o fazer. Claro que qualquer relação tem sempre dois lados, não há só um e, tal como aconteceu comigo, também com toda a certeza já sentiram o mesmo em relação a mim.

Nem sempre o desencanto vem de uma vez só. Por vezes, vai-se instalando aos poucos. Mas esse primeiro momento de desencanto é crucial. Como um despertar. Começamos a olhar com outros olhos, e nunca mais nada é como era. É esse o momento que não gosto. Como se algo se quebrasse. Algo que era precioso para nós. Não verga, não dobra, não torce. Quebra-se e não há cola capaz de o emendar. Mesmo que nos esforcemos por tratar essa quebra, a sua marca fica sempre lá. E mesmo vendo a pessoa sem essa cor encantada com que a víamos, quando essa pessoa foi importante para nós, fica um vazio, uma parte da nossa vida que se quebra também. 

Arrisco-me a pensar que prefiro o desencanto que vem de uma vez só, como um banho de água fria em pleno Dezembro, do que a chuva miudinha que acompanha este desencanto que se instala lentamente. Este, deixa um vazio maior, um desalento, uma tristeza misturada com pena,  até com um certo conformismo, à medida que todo o encanto se vai desvanecendo.

PS1 - Maria Invisível, a I és tu! ;)
PS2 - Onde se lê nós, leia-se eu.

domingo, 4 de julho de 2010

Danone, Mimosa, Adágio ou simplesmente Criança? Está difícil!!


Por mais que pense, não me consigo decidir que marca usar. Pensando bem, acho que terei de inventar uma marca nova, e registar a patente. Afigura-se-me complicada esta tarefa, porque terei de incorporar vários prazos de validade... pelos vistos, há um prazo limite para tudo. Que todos nós temos um prazo de validade já eu sabia. Apesar de ter visto os filmes com o Christopher Lambert sobre os Imortais, sei que aquilo é filme e não realidade, logo, um dia, a validade acabará.  Que havia prazos ou sub-prazos para tudo é que eu não sabia, muito menos que esses prazos rondam os 30 anos. Sei que há coisas que, passando determinada idade, não são, de todo, normais, principalmente se feitas com um carácter repetitivo. Brincar aos Pokémons com o meu filho  de vez em quando, porque ele me pede, não é anormal, digo eu, ou andar a jogar futebol no parque. Claro que viver no mundo das crianças não é o mesmo que viver o mundo das crianças, nem ser criança. Mas isso sou eu que digo, e pode muito bem ser uma desculpa que me dá jeito. 

Ouvir dizer "já não tens idade para isso", faz-me um bocadinho de comichão.  Talvez seja o meu medo inconsciente de envelhecer muito (podes ficar descansado, Freud, que não vou psicanalizar!). Por vezes sinto-me como um iogurte fora de prazo. Por mais que tenha procurado, não encontrei tatuados números com datas no meu corpo. Olhando atentamente ao espelho, esperava ver começar a correrem números na testa ou nos olhos, como acontece nos desenhos animados. Mas não vi nada disso. Isto de me compararem a produtos de super-mercado mexe-me um bocado com os nervos! Se me apetece dançar, danço. Se me apetece cantar, canto. Se me apetece fazer uma corrida com o sr Prozac digo "P, vamos ver quem chega primeiro?". Claro que não vou dançar no trabalho ou cantar a altos berros na rua. Apesar de muitas vezes brincar, nem tudo é uma brincadeira para mim. O que é sério, é sério, mas não acho que o facto de a vida ser como é me obrigue a andar sisuda todo o dia,  não acho que ser adulta implique perder toda essa alegria que temos em crianças. Se isto é ser criança, então, prefiro ser assim. Continuar a fazer coisas apenas e só porque me fazem rir. Pelo menos, poupa-me o trabalho de escolher uma só marca de iogurtes... se bem que lembrando-me de alguns anúncios da Adágio, confesso que a tentação de escolher esta marca é grande...


Privar-me das coisas que eu quero, posso e gosto de fazer na vida por  causa da idade, de parecer mal, seria uma forma de me penitenciar por uma coisa que não é um crime, mas um facto natural da vida. 
Ir a correr ao shopping ver se consigo arranjar seriedade suficiente para andar sempre elegantemente de cabeça erguida, sem dar um passo em falso, nem trocar os pés também nãome parece que vá resultar. Ah! E não esquecer também as outras coisas que, com esta idade, também já deveria ter, como relação estável e estabilizada, etc, etc, etc. Lembro que se calhar também já devia ter o meu Audi A5, mas ninguém se chega à frente!!!

Sou criança? Paciência! Vou continuar a querer que a vida tenha alguma cor além do cinzento, que o meu sorriso apareça, que seja verdadeiro e surja por motivos que aparentemente não interessam, mas que são especiais para mim. Vou continuar a ter vontade de dançar, cantar, saltar e correr. Vou continuar a ter vontade de viver como sei viver!

terça-feira, 29 de junho de 2010

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Quando lhe perguntavam porque gostava dele, não sabia responder. Sorria, encolhia os ombros, e tentava... Tentava definir o porquê do que sentia, mas não conseguia. Conseguia definir um quadrado com facilidade, até um círculo ou uma árvore, mas como se define um sentimento? Nem sabia ao certo que nome lhe dar. Amor? Encanto? Ilusão? Paixão? Mesmo após  anos ainda não sabia. Sabia apenas que existia, o nome não importava.

Talvez enumerar as suas qualidades a ajudasse a definir. Mas não se gosta de outra pessoa apenas pelas qualidades que ela tem, ou as pessoas honestas, alegres, simpáticas, trabalhadoras, teriam uma fila de pretendentes à porta. O amor não obedece à razão nem à lógica.  O amor acontece sem se querer. Ela nunca quisera aquele amor. Ele viera e instalara-se a seu bel prazer, sem pedir licença sequer. Tivesse ele pedido licença e teria ficado na rua. O amor acontece por empatia, por magnetismo, porque os planetas estão desalinhados. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que  nos dá ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pelo olhar, pelo andar. Ama-se pelo sorriso. Ama-se pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Ama-se por tudo e por nada. Ama-se porque se ama. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu + tu = nós, ou, se não fosse assim: eu - tu = esquecimento.  Não funciona assim. Esse amor não nos consulta, não nos pede licença, não nos obedece. Não se define. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.