Todo o rebuliço em volta da vinda do Papa a Portugal está a levantar vozes em qualquer canto do País. Todos temos direito à nossa opinião, é verdade, mas também é verdade que todos têm direito a que a sua opinião seja respeitada. Ter capacidade para rir com os acontecimentos, é saudável e até louvável. Conhecer o limite entre brincadeira e mau gosto também, e ofender o outro, não respeitando as suas crenças, só porque eu acho que é assim e eu sei tudo, não me parece muito correcto.
Cresci no seio de uma família cristã, católica, com direito a tudo: baptismo, primeira comunhão, crisma, comunhão solene. Frequentei a catequese e fui à missa. Transmitiram-me a fé em Deus e incluíram-me na Igraja Católica. Quando comecei a pensar por mim, comecei a ter a minha opinião e a não aceitar tudo que me era apresentado. Comecei a dissociar Deus, em que continuo a acreditar, e a Igreja, em que não acredito. Aliás, sou persona non grata na Igreja, a partir do momento em que quebrei um dos sacramentos que recebi. Por vezes, gostaria de ter a inocência do meu filho que disse à avó que "se Deus e Jesus não existissem não se falava deles". Já tive muitas dúvidas e já perguntei muitas vezes "onde está Deus", quando vejo tanta coisa má, tanta pobreza, tanta catástrofe. Como se Ele fosse o culpado de tudo. Mas, tal como quando damos um brinquedo a uma criança, em que ela o pode estimar e tratar com carinho, assim também nós fazemos com o mundo que nos deram. Se a criança estraga o brinquedo, a culpa não será de quem lho deu. É-lhe dada a opção de conservar ou estragar.
Sendo a Igreja formada por homens, é falível, reinando em muitos sectores a hipocrisia. Há coisas que não são admissíveis, na minha opinião. Muitos horrores e crimes foram perpetuados pela Igreja em nome de Deus. Mas também muitas coisas boas foram feitas por essa mesma Igreja. A fé e a crença nos ensinamentos cristãos foram o suporte de muita gente e, muitas vezes, uma derradeira esperança e factor de união. Imaginem então um mundo sem fé nenhuma.
Nem todos ingressarão na vida religiosa pelas melhores razões. Há pedofilia na Igreja, assim como em outros sectores em que não deveria haver. Há pediatras pedófilos, há professores pedófilos, e não é por isso que a medicina é irradicada da infância ou as escolas fecham. Há pais que abusam eles próprios dos filhos. Pais não será o nome correcto, mas não quero ofender os animais, por isso fica o nome que a biologia lhes concedeu. Na minha opinião tomar o um pelo todo e reduzir tudo ao mesmo não é correcto. Há padres que efectivamente encaram a sua vida como uma missão de ajuda ao próximo. Conheci alguns assim.
A igreja condena o uso de preservativo ou qualquer outro contraceptivo, assim como o casamento homossexual. Está errado (na minha opinião). Mas não é só a igreja que o faz. Muita gente discrimina os homossexuais, chegando ao extremo de dizerem "antes queria um filho drogado do que homossexual". No entanto, essas mesmas pessoas levantam a voz para falar contra este aspecto da igreja. Muitas outras coisas estão erradas na Igreja.
O Papa faz uma visita a Portugal. É recebido com pompa e circunstância. Além de ser um Chefe de Estado, é o líder da Igreja Católica. Goste-se ou não se goste. Portugal é (ou parece ser) um País maioritariamente católico. Alguns exageros? Concordo. Mas em muitas conversas que ouvi fiquei com a impressão que esta visita do Papa funcionou como um bode expiatório para todos os problemas do País. Aproveitamos para expurgar o nosso descontentamento usando a visita papal. O décimo terceiro mês vai voar, pelo menos parte dele, com ou sem Papa. Os impostos vão aumentar, com ou sem Papa. O desemprego, as injustiças sociais vão aumentar, com ou sem Papa. A tolerância de ponto não se justifica. É a minha opinião. Mas não é esta tolerância de ponto que vai levar o País à bancarrota, quanto mais não seja porque já lá estamos. O que não entendo é como se diz tão, tão mal da tolerância, como se está tão preocupado com ela, como é uma estupidez tão grande, como achando que é um ultraje, se faz parte desse ultraje, podendo não a gozar. Se acho assim tão mal, se estou assim tão preocupada, porque não vou trabalhar?
Não acho que esteja bem gastar tanto dinheiro num país em crise. Muitas outras prioridades deveriam ter a atenção de quem nos (des)governa. Não me acredito que o Papa tenha exigido tudo o que foi feito, não devendo ser ele o alvo das críticas, na minha modesta opinião, repito. Assim como acho que a pessoa ao meu lado, se acredita e quer acreditar na Igreja, no Papa, no que for, merece o meu respeito. Brincar, tudo bem. Ofender, acho que não.
Muito mais poderia ser dito e discutido. Muita gente discordará do que digo. É legítimo, aceito-o e respeito.