"Irá iniciar-se, a partir de 26 de Outubro de 2009, a primeira fase da Campanha de Vacinação contra a infecção pelo vírus da gripe pandémica (H1N1) 2009. A vacina foi aprovada pela Agência Europeia do Medicamento (EMEA) e pela Comissão Europeia."
NB1 - Posso estar redondamente enganada, mas, depois de tanta coisa que li, não faria a vacina amanhã, se me fosse oferecida. Este texto está escrito apenas como uma pequena forma de protesto contra o facto de me chamarem dispensável. Chamem-me presunçosa, digam que tenho a mania, o que for, mas não me considero dispensável.
Hoje pensei seriamente em não ir trabalhar. Estava um tempo nada convidativo para sair de casa, com chuva, frio, vento. Não me apetecia nada deixar o aconchego da minha cama e da minha casa. Não me apetecia nada apanhar gripe. Afinal, sou dispensável. Não sou indispensável para o funcionamento do país. Foi o que disseram na televisão. Falam muito da gripe A, que é muito má, que vai afectar muita gente. Dizem que há vacinas, mas não para todos. Porque alguns de nós são dispensáveis. Não percebi muito bem isto.
Apesar de não ser muito importante, não sou completamente ignorante, e entendo que a vacinação se faça de uma forma seriada, vacinando primeiro os grupos de risco. Tem lógica. Até acho que se deviam vacinar primeiro os profissionais de saúde (se eles ficarem doentes quem trata de nós?) e as crianças. Não entendo, por exemplo, porque é que, antes das crianças, vêm os titulares de orgãos de soberania. Todos sabemos que as crianças são o alvo preferencial da maior parte das viroses, e que os infantários e escolas são autênticos viveiros de bichinhos à solta. As crianças vão para casa dos tios, dos avós, dos colegas, toda a gente lhes dá beijos e abraços. Se eu fosse um vírus, não queria outro meio de transporte. Além disso, as crianças não têm vice-crianças e se ficarem doentes vão perder tempo de escola e no fim do ano transitam na mesma para o ano seguinte, porque o bom aproveitamento escolar tem de ser mantido. Que eu saiba, existem vices de quase todos os titulares de orgãos de soberania. Dificilmente o país pararia.
Entendo que tenha de haver racionalização e hierarquias na vacinação. Que há pessoas que têm maior risco de contágio do que eu. Que as redes de electricidade, gás, telecomunicações têm de se manter. Até acho um EXAGERO esta história toda. Só não gosto que digam que sou dispensável. Porque até não sou. Não sou dispensável para mim (compreensivelmente). Não sou dispensável para o meu filho, para a minha mãe, para a minha família toda. Não sou dispensável para o meu orçamento familiar, que depende exclusivamente de mim. Não sou dispensável para os meus amigos. Não sou dispensável para o meu trabalho, porque há coisas que se eu não fizer, ninguém faz. O país não iria notar, mas as pessoas que necessitam do meu trabalho iam, com toda a certeza. Não sou dispensável para os meus colegas de trabalho, porque todos os dias lhes levo um pouco de boa disposição, e se eu não for trabalhar eles vão ter de trabalhar mais, o que não é muito possível, porque já têm trabalho que chegue e sobre. Tenho pena de não ser dispensável quando tenho de pagar os meus impostos, mas isso agora não interessa nada.
Sendo assim, como me recuso a ver-me como dispensável, pensei em tentar incluir-me em algum dos grupos definidos pela DGS:
- Profissionais de Saúde - não deve incluir profissionais com saúde.
- Grávidas nos 2º e 3º trimestres com patologia associada - ainda pensei em arranjar um candidato a pai à pressa, mas ainda teria de somar três meses e entretanto a altura crítica já teria passado. Mesmo assim, ainda teria de arranjar patologia associada.
- Titulares de órgãos de soberania e profissionais que desempenhem funções essenciais - Agora que as eleições acabaram, não me parece que tenha hipótese de alcançar um destes títulos. Para mim, as funções que desempenho são essenciais, mas para o caso a minha opinião não interessa.
- Doentes com asma moderada a grave - não tenho (e não brinco com coisas sérias).
- Obesidade mórbida actual - Posso desatar a comer de manhã à noite sem parar durante uns meses, mas é uma ideia demasiado grande.
- Grávidas nos 2º e 3º trimestres - aqui não precisava de ter doença associada, mas assim a correr não me apetece engravidar.
- Acompanhantes de crianças com menos de 6 meses portadores de doença grave - também não.
E lá foi o grupo A. Estou out.
- Pessoas com patologia: diabetes, doenças pulmonares, cardiovasculares, renais, doentes não integrados no grupo A.
- Outros grupos profissionais de saúde em contacto directo com doentes.
Lá foi o grupo B. Continuo out.
- Obesidade - Posso comer só coisinhas que engordem (e que sabem tão bem) durante uns tempos. Depois da vacina faço dieta rigorosa. Má ideia. Detesto fazer dieta.Posso não conseguir emagrecer depois.
- Crianças até aos 12 anos - finalmente as crianças! Não me parece que passe por ter 12 anos!
- Dadores de sangue e estudantes de medicina - salva pelo gongo, não pela parte do estudante, mas pela parte de dadora de sangue.
Consegui! Incluída no grupo C. Não está muito mal. Suspeito, no entanto, que por esta altura ou já tive gripe ou, se não tive, já a gripe acalmou por uns tempos porque estaremos no Verão!